“Quem é o grupo de risco hoje? Todos nós”, alerta diretor do Complexo do Trabalhador

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Quando o hospital começou a se preparar a enfrentar a Covid-19? E como foi essa preparação naquele momento?
O primeiro decreto estadual referente à pandemia de Covid-19 foi o de número 4.230 de 16 de março de 2020, que declarou as medidas de enfrentamento da emergência da saúde pública. Depois, no dia 19 de março, foi publicado o Decreto n° 4.298, declarando situação de emergência.
Aqui no CHT recebemos o primeiro paciente com suspeita de Covid-19 em 27 de fevereiro de 2020 – antes, portanto, dos decretos. Fomos nos adaptando à situação na medida em que ela evoluía. Desenhamos, naquele momento, quatro fases de ativação que previam a evolução da demanda de atendimento por Covid-19 ao longo do tempo. Estamos há três semanas na Fase 4, a mais emergencial.
E, com o passar do tempo, em termos de estrutura, como o hospital aumentou sua capacidade de atendimento?
Logo no início da pandemia, ativamos 22 leitos de UTI exclusivos para Covid-19. Hoje, são 82 leitos de UTI e 85 de isolamento respiratório, totalizando 167 leitos exclusivos. Para isso, usamos alas que estariam em reforma ou utilizadas para outras atividades – como as salas para cirurgias eletivas, por exemplo, que foram suspensas. Temos hoje um conjunto de cerca de 400 leitos. Cerca de 40% da atividade do hospital hoje é voltada à Covid-19.
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Além da situação da pandemia, também temos visto a lotação dos nossos 30 leitos de UTI exclusivos para trauma. Nos primeiros dois meses da pandemia, observamos uma redução drástica de acidentes automobilísticos e de violência porque, como a população estava com medo, não havia aglomerações. Hoje, essa situação não apenas voltou ao normal como aumentaram os acidentes domésticos. Agora, os casos estão mais graves e, portanto, exigem uma permanência maior do paciente. Então, não só nos leitos de Covid-19 como nos de trauma, uma vaga abre e já recebe outro paciente.
Em janeiro, o Hospital do Trabalhador completou 74 anos e recebeu como homenagem a primeira vacinação contra a Covid-19 no Estado. Como foi esse momento para a instituição?
Em 18 de janeiro de 1947 foi fundado o Sanatório Médico Cirúrgico do Portão, hoje Hospital do Trabalhador. A coincidência, que para quem tem fé é ação da providência, fez com que a vacina chegasse em Curitiba exatamente em 18 de janeiro.
O governador Carlos Massa Ratinho Junior e o secretário da Saúde, Beto Preto, entenderam que essa data não poderia passar em branco. E foi uma deferência. Nossa comunidade interna se sentiu abraçada, foi emocionante. As pessoas mereciam esse reconhecimento pelo trabalho que fizeram durante todo o período pré-vacina, expostos na linha de frente, com risco para as suas famílias, e apesar disso tudo não deixaram de trabalhar. Realmente foi um momento inesquecível.
Para ser a primeira vacinada do Paraná, escolhemos uma enfermeira que foi nossa estagiária, nossa bolsista, e hoje é nossa colaboradora. Para as primeiras doses, escolhemos também um médico clínico que chegou a fazer mais de 25 plantões por mês na linha de frente. Escolhemos uma pessoa da limpeza, que foi a única inicialmente que aceitou limpar a UTI de Covid-19. Escolhemos pessoas realmente emblemáticas, que mereciam essa primeira vacinação.
Agora, todos os três mil funcionários do complexo já foram vacinados. Lembrando que a vacina não é um benefício: se um dos nossos profissionais fica doente, nós perdemos mão de obra e temos que atender menos. Um profissional de saúde sadio permite que o atendimento continue.
Até o momento, quantos pacientes com Covid-19 já foram internados no CHT? E qual percentual desses pacientes se recuperaram e tiveram alta?
O primeiro caso chegou em 27 de fevereiro de 2020. Desde então, atendemos 5.292 suspeitas de Covid-19. Do total, 856 eram casos leves, liberados após coleta de exame, e 4.436 eram casos moderados ou graves e foram internados. Até agora, 82% dos internados tiveram alta hospitalar, 15% foram a óbito e 3% foram transferidos para outros hospitais.
Qual o perfil de pessoas que chegavam à UTI no início da pandemia e o que mudou nestes últimos meses?
Do início da pandemia até dezembro, tínhamos um perfil de pessoas de mais idade associado a comorbidades ou a diminuição de imunidade. Além disso, era uma doença mais insidiosa, ou seja, ela tinha uma evolução progressiva, em que o paciente vai piorando com o tempo. Eles internavam, iam para a enfermaria com isolamento respiratório e cerca de 20% desses precisavam de UTI.
O que vemos esse ano: começou a se misturar a esse público pacientes mais jovens, com evolução muito mais rápida. O paciente às vezes começou gripado há cinco dias e hoje está em insuficiência respiratória. Se aqueles idosos do ano passado ficavam de 15 a 30 dias na UTI e 75% tinha alta, essa evolução agora está muito mais rápida, e por consequência, o internamento em UTI e a morte estão mais rápidos também. Ou seja: não é mais uma doença de grupos de risco. Quem é o grupo de risco hoje? Todos nós.
Essa uma mudança é uma evolução na mesma doença, que faz com que a gente acredite que só tem uma justificativa: uma nova cepa. E com essa evolução mais rápida e grave, nossa preocupação aumentou ainda mais.
Nesta semana passamos pelo marco de um ano desde que o coronavírus chegou ao Paraná, e estamos vivendo o momento mais grave dessa jornada. Quais fatores colaboraram para esse cenário?
A gente imaginava que o pior tinha sido em julho e agosto do ano passado, um momento de pressão sobre o sistema de saúde. Sentimos nitidamente chegar perto de acabar os leitos, mas sempre tinha como acolher mais um paciente. Hoje, sentimos que está muito pior. E eu só posso justificar isso por uma população que cansou do isolamento, junto da desinformação e do conflito de informações.
As perdas são muito tristes. Além de levar ao óbito, ela leva de uma forma muito sofrida. Imagine a sensação de se afogar fora d’água. Você vai precisar ser intubado, mas seu cérebro está lúcido. Temos relatos dos pacientes dizendo, nesse momento: “cuidem de mim, eu não quero morrer, avise minha esposa que eu a amo, avise meus filhos que eu nunca vou esquecer deles”. A pessoa fala isso com falta de ar, mas lúcida. Ela sabe o risco que corre. Ela viu na UTI o colega do lado morrer, viu o colega da frente ser intubado. A população não vê isso e talvez por isso não entenda a gravidade da situação.
Eu sinto falta de poder abraçar meu pai. Ele tem 80 anos. E faz um ano que eu não dou um abraço nele. Porque eu tenho medo de passar uma doença que pode ser sua causa de morte.
Vale reforçar: quais atitudes o cidadão deve tomar para se proteger e proteger seus próximos do vírus?
Aqueles que têm a felicidade de poder fazer home office e isolamento social até que a gente tenha condição de vacinar grande parte da população é a medida de maior resultado. Se você não pode ficar isolado, use equipamentos de proteção – máscara, óculos e luvas. Quando chegar em casa, lave as mãos, tome banho e troque de roupa.
Por fim, a solução: a vacina. Esse é o único instrumento que pode fazer a diferença. Todo o restante não tem fundamentação científica. Portanto a luz no fim do túnel é vacinar a população. E, até que isso aconteça, isolar as pessoas.
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Eu sou funcionário público de carreira há 24 anos e sou diretor desta unidade há 18 anos. Eu tenho uma fé imensa. Quando não há solução, surge uma solução. Talvez não seja por acaso que a vacina chegou no CHT no dia 18 de janeiro. Talvez não seja por acaso que tenhamos um governador sensível e sensato, e um secretário médico e competente. Porque teríamos uma dificuldade muito maior se não fosse assim. Tudo isso que estruturamos só foi possível porque o governo decidiu, apoiou e financiou. Essa constatação é como médico e cidadão. Isso é resultado de muito trabalho, planejamento, sensatez e decisão.
Agência Estadual de Noticias