“Reflexão aos pais contemporâneos”, por Maria de Fátima Veloso Braga, na coluna “Por escrito”

Filho,
Hoje quero pedir-te perdão:
Pelas vezes que te deixei horas e horas na frente da Tv, por que assim eu teria mais tempo para realizar as várias atividades que julgava importantes…
Por comprar pra você o melhor celular, a melhor roupa, o melhor tênis mesmos quando eu não podia, quando nem mesmo eu tinha essas coisas, comprometendo mais horas de trabalho para arcar com esses exageros, pensando que estava fazendo o mais sensato…
Pelas vezes que deixei de te fazer um cafuné, te dar um abraço, de brincar contigo, de te ouvir, enfim de fazer pequenas coisas, simples que te faria verdadeiramente feliz, porque precisava me dedicar ao trabalho, caso contrário não poderia te presentear com aquele brinquedo caro que “eu pensava” que você queria…
Por desejar te poupar de tudo e de todos, por almejar que você tivesse uma vida diferente da minha, por tentar de todas as maneiras evitar que você sofra e que a vida não seja tão difícil pra você como foi para mim…
Eu queria apenas…
Facilitar o teu caminhar, tornar a tua jornada menos exaustiva, mais leve…
Queria te poupar do trabalho árduo e das dificuldades…
Queria apenas te proteger de todos, de tudo… da vida…
AH!! Como eu estava errada!!..
Hoje eu percebo…
Que se me tornei quem sou foi por ter vivido e suportado tantas dores, por ter caído tantas vezes, por ter fracassado, chorado, por ter ido à lona, não apenas uma, mas muitas vezes, mas apesar de tudo ou acima de tudo ter me levantado e continuado…
Que se eu te poupar dessas quedas, tropeços, derrotas, lágrimas, se eu te der tudo pronto, estarei te impedindo de criar resiliência e de aprender a ser gente, a ser humano e a sobreviver na selva da vida. Estarei te tirando o livre arbítrio que nos foi dado por Deus para fazermos nossas escolhas. E muito mais que isso estarei te impedindo de viver e experimentar a vida…
Essas quedas são necessárias, são importantes, são essenciais para nos tornarmos pessoas de bem, de sucesso e para descobrirmos nossa verdadeira missão neste mundo, pois na maioria das vezes o ser humano precisa cair para aprender, e se EU te poupar dos tombos estarei te condenando a um fracasso ainda maior num futuro próximo…
Pais pensem nisso!!!
O mundo de hoje não é mais como de outrora! Não podemos esperar que os filhos dessa geração pensem ou ajam como nós. O que estão dando aos seus filhos? Amor, compreensão orientação ou tentando evitar que eles sofram? Fazendo todo o trabalho por eles, não permitindo que eles desenvolvam seus dons e nem mesmo descubram quem são!! Criando filhos ansiosos, estressados, irresponsáveis, inseguros, tiranos e fúteis, que não sabem o valor das coisas e muito pior, que não lhes dão o devido valor.
Maria de Fátima Veloso Braga reside em Campo Mourão, graduada em Ciências Contábeis, matemática e cursando filosofia. Professora da rede pública de ensino e amante incondicional dos livros.
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