Catadores de recicláveis colocaram Tio Leco na Câmara

Tio Leco entrou na disputa pela primeira vez e admite ter ficado surpreso com o resultado – Foto: Clodoaldo Bonete/Tasabendo.com
Alex Sandro Alves Nunes, 42 anos, ou simplesmente “Tio Leco”. Eleito vereador de Campo Mourão pelo Partido Progressista (PP), na eleição deste ano, ele faz parte do grupo da renovação no Legislativo, que chegou a 70%.
Entrou na disputa pela primeira vez e admite ter ficado surpreso com o resultado: 759 votos que lhe garantiram uma das 13 cadeiras no Legislativo. “Não esperava fazer mais de 300 votos.”
Um homem simples, ainda sem jeito para entrevista, mas com uma disposição extrema no trabalho de coleta de recicláveis. Inclusive, sua campanha foi embalada pelos companheiros de profissão, que organizaram até uma carreata no Lar Paraná, com todos empurrando seus carrinhos. Reuniu cerca de 60, incluindo algumas pessoas com carros e caminhões também usados na coleta.
Tio Leco representa essa categoria e tem orgulho do que faz. Foi dessa forma, com muito esforço e acordando de madrugada que ele batalha desde criança para garantir o pão na mesa. “Aos 14 anos tive o primeiro filho, o que me obrigou a ser um homem adulto muito cedo. O ganha pão vinha de uma máquina de cortar grama, mas o sonho era uma máquina de algodão doce, a qual consegui também”, disse ele.
Nascido em São João do Ivaí, ele chegou ainda criança a Campo Mourão para morar na comunidade São Francisco, a maior favela da cidade na década de 80. “Hoje nem existe mais a favela, a comunidade São Francisco faz parte do jardim Pio XII”, relata ele, que mora na Rua das Palmeiras.
Conheça mais sobre Tio Leco na entrevista a seguir.
Quem é o Tio Leco e como surgiu o apelido?
Meu nome é Alex Sandro Alves Nunes, tenho 42, e comecei a ser chamado de Tio Leco, na época em que era motorista de ônibus escolar. As crianças começaram a me chamar assim e como organizo duas festas para elas ao ano, em junho com a festa Junina e outra no Natal, o apelido pegou também entre os adultos. Hoje todo mundo me conhece por Tio Leco. Nasci em São João do Ivaí, mas cheguei ainda criança em Campo Mourão para morar na favela, onde cresci. Aos 14 anos, engravidei uma namorada e tive o primeiro filho. Fui morar com ela, e precisei assumir a responsabilidade de pai e homem adulto muito cedo. Cortava grama para sobreviver, mas o sonho era ter uma máquina de algodão doce, a qual não demorei para conseguir. Certo dia um vendedor de algodão doce passou em casa negociando o produto em troca de material reciclável. Aquilo me animou a começar com a coleta de reciclável, pois tinha a vantagem de já ter o carrinho de algodão doce. Levantava as 5 horas da manhã e saia para as cidades da região vender e trocar o algodão doce por litros e material reciclável. Também fui engraxate e motorista do transporte escolar. Hoje sou casado com a Célia (a primeira esposa faleceu) e temos cindo filhos.
Como foi a sua campanha?
O convite para ser candidato veio do Isidoro Moraes, amigo que conheci na época em que morava na São Francisco. Como não tinha nada a perder, eu aceitei. Mas acreditava que ia tirar cerca de 200 a 300 votos. Só comecei a acreditar, no meio da campanha, quando vi que tinha boa aceitação entre as pessoas, principalmente entre os catadores de papel. Foi uma surpresa receber mais de 700 votos e agora quero me preparar para representar bem a nossa categoria.
Já tem algum projeto para o início do mandato?
Como prometi aos meus amigos, vou defender o pessoal que trabalha com os recicláveis. São pessoas muito sofridas, precisam trabalhar a noite, ou sair bem cedo para conseguir a coleta dos materiais. Além disso, muitos nem tomam café, por isso quero conseguir um lugar para que eles possam tomar o café da manhã antes de sair e se possível o almoço. Também quero melhorar a frota desses trabalhadores. Até já falei com o deputado Ricardo Barros, que prometeu me dar apoio. Outro projeto é a reativação da Escola do Trabalho, para que façam curso e se especializem em outras áreas, para que não sejam, catadores o resto da vida. Quem trabalha nesse serviço sofre muita discriminação. Muitos acham que o catador é ladrão, bêbado, ou drogado, mas ali são trabalhadores, pais de família, que lutam pelo seu sustento. Claro que alguns acabam fazendo coisa errada, mas não podemos generalizar.
Você diz que que promove festas no bairro para as crianças. Sempre foi uma pessoa preocupada com a minoria?
Sim, quando morava na favela São Francisco, na década de 80, não existia Samu e o atendimento da saúde era precário. Quando alguém ficava doente ou era baleado, por exemplo, era a própria viatura da polícia que levava ao hospital. Eu tinha uma Belina velha e também prestava esse tipo de apoio para quem precisava. Se tinha uma mulher grávida, em trabalho de parto, eu mesmo levava ao hospital. Agora eu organizo uma festa Junina no meio do ano e no fim do ano, a festa do Natal para as crianças do bairro. Os comerciantes e empresários me ajudam com doações. Sei que morando na periferia elas não têm muitas oportunidades. Comprei também um micro-ônibus o qual pretendo transformar em um trenzinho para carregar as crianças. No centro sempre tem nos fins de ano, mas como disse tem família dos bairros que nem tem condição de levar o filho lá no centro para andar no trenzinho.
O que achou da renovação na Câmara?
Acho que a mudança que as pessoas tanto queriam aconteceu. Estou confiante e me preparando, fazendo curso e até contratei assessor com experiência na política para poder fazer um bom trabalho na Câmara. Posso não ter experiência, mas quero aprender e disposição não falta.
Por que você acredita que teve tanto apoio dos companheiros de profissão?
Penso que cada um enxergou em mim a sua própria realidade. Estudei até a sétima série, conheço bem as dificuldades que cada um enfrenta e sei que todos estavam desacreditados daqueles que estão no poder. Por isso houve essa união em torno do meu nome. A partir de janeiro vou me dedicar ao máximo como vereador para não decepcionar aqueles que acreditaram em mim.