Em um ano, Copel tem alta de 110% no número de reclamação junto à Aneel

O número de reclamações contra a Copel na Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) mais que dobrou em doze meses. Segundo o Informativo de Ouvidoria Setorial da Aneel, divulgado em setembro, foram 6.051 registros contra a concessionária entre setembro de 2025 e agosto de 2026, alta de 110,4% na comparação com os 12 meses anteriores.
É o quarto maior aumento entre as 51 distribuidoras de energia do país. No total de reclamações do período, a Copel aparece na 10ª posição. Os números confirmam as falhas no serviço da Copel nos últimos anos, principalmente no meio rural.
Inclusive, em julho, o Sistema FAEP encaminhou ao Ministério Público do Paraná (MPPR) e ao Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (MPTCU) pedindo investigação contra a Copel.
A representação no MPPR pede a abertura de inquérito civil para apurar interrupções frequentes e prolongadas, oscilações de tensão e demora no religamento, além de solicitar dados técnicos à concessionária.
Já no MPTCU, a entidade pede que o órgão examine se o reajuste e os investimentos que embasam a nova tarifa correspondem à qualidade do serviço oferecido aos consumidores.
“Boa parte destas reclamações tem origem nos nossos produtores rurais, que convivem, há anos, com o péssimo serviço da Copel. O fornecimento de energia no campo chegou num ponto insustentável, onde, infelizmente, as perdas na produção e os prejuízos financeiros se tornaram uma rotina”, destaca o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette.
“O crescimento exponencial nas reclamações comprova que há algo de errado no serviço fornecido pela Copel. O Sistema FAEP vai continuar cobrando a empresa em busca de melhorias urgentes”, complementa.
Mesmo com o fornecimento de energia deficitário, a conta fica mais cara. Desde 24 de junho, a tarifa da Copel subiu 20,51%. Na ocasião, o Sistema FAEP repudiou a medida, já o índice ficou acima da inflação de 2025, de 4,26%, e que o produtor passaria a pagar mais por uma energia que não chega com qualidade.
“PIOROU MUITO”
A produtora de leite Franciele Aparecida Byk Schneider, de Marechal Cândido Rondon, no Oeste do Paraná, convive com oscilações e quedas de energia que comprometem a rotina da propriedade, que hoje produz até 18 mil litros de leite por mês.
Há quase duas décadas na atividade, a pecuarista confirma que o cenário piorou nos últimos anos. “No começo, eu não lembro dessas oscilações. Acontecia problema em caso de temporal. Mas, do jeito que está hoje, com certeza não era. Piorou muito”, afirma.
Os episódios mais críticos começaram em março. Houve dias com quedas consecutivas de energia. Em algumas ordenhas, a produtora chegou a registrar 20 interrupções em uma hora e meia. “A gente colocava os conjuntos de ordenha nas vacas e caía tudo. Quando conseguia colocar de novo, caía a luz novamente. Então, a gente optava por desligar a energia da Copel e usar o gerador. Isso foi por muito tempo”, relata.
Na noite de 21 de setembro, um temporal derrubou a energia na região. No dia seguinte, o fornecimento foi restabelecido, mas com baixa tensão, o que impediu o funcionamento do resfriador, da ordenhadeira e das bombas que abastecem de água os animais. Nos dias 22 e 23, as quatro ordenhas foram feitas com gerador, que também foi usado para resfriar o leite.
Uma equipe da Copel esteve na propriedade, mas não solucionou o problema. “Eu mostrei que ligava a ordenha e o motor morria. Eles mesmos mediram a tensão, viram que estava baixa e falaram que não podiam fazer nada”, diz. A produtora, então, abriu uma nova solicitação e uma reclamação formal, e só na noite do dia 23 o fornecimento foi normalizado.
“Cada vez que eu preciso colocar o gerador tem custo com diesel. A água dos animais é toda por bomba, então preciso de energia. É um prejuízo grande”, avalia. “Esse problema não é de hoje. Por mais que abra solicitações e reclamações, não resolve. Eles amenizam por um período e depois começa tudo de novo.”
O presidente do Sindicato Rural de Marechal Cândido Rondon, Edio Chapla, confirma que a situação se repete em várias propriedades da região, especialmente nas cadeias de proteína animal.
Segundo o dirigente, o “pisca-pisca” no fim da tarde e início da noite é particularmente grave na piscicultura, pois a tensão baixa impede o acionamento dos geradores porque o sistema entende que não há falta de energia.
O dirigente, que também é piscicultor, ainda relata casos de produtores que ficaram até 48 horas sem energia porque, após uma queda, as equipes da Copel religam a rede principal, mas não percorrem as linhas para rearmar as chaves individuais das propriedades. “Além dos custos, o produtor vive com essa intranquilidade, por mais que tenha gerador”, afirma. “Os produtores não sabem mais a quem recorrer”, diz.
GERADOR TRÊS VEZES POR SEMANA
Em Coronel Vivida, no Sudoeste do Estado, o avicultor Gilvânio Bussularo trabalha com a sensação constante de estar no limite. Há 12 anos na atividade, o pecuarista aloja 50 mil aves por lote. A oscilação no fornecimento de energia também obriga a recorrer ao gerador com frequência.
“Se acontecer alguma falha mecânica, são 50 mil aves de prejuízo. Quem é que trabalha seguro sabendo que está contando com o gerador praticamente três vezes por semana?”, questiona.
Na semana passada, o gerador funcionou em três dias diferentes por falta de fase. “O gerador trabalha direto porque não chega a fase correta aqui”, afirma.
Bussularo reconhece que, quando há queda total, a Copel atende, ainda que com alguma demora. A principal queixa é a qualidade da energia que chega à propriedade, que tem queimado equipamentos, lâmpadas e contatores. “É muito equipamento queimando, muito gerador trabalhando por oscilação de energia. Não tem condições. Nós já pagamos uma energia caríssima”, critica.
TECNOLOGIA SEM ENERGIA
Em Espigão Alto do Iguaçu, na região Centro-Sul, o produtor de leite Meysson Vetorello investiu em ordenha robotizada, mas afirma que a rede trifásica da Copel não garante tensão estável para manter o equipamento funcionando. “Às 17 horas, eu tenho que ligar o gerador. A tensão fica abaixo do necessário. Não adianta a gente gastar com ordenha robotizada e não poder usar”, desabafa. Para ele, o custo com o gerador está inviabilizando o investimento em automação.
A falha no atendimento ficou ainda mais evidente no dia em que um tornado atingiu o município, na madrugada de 10 de setembro. Na propriedade de Vetorello, a fábrica de ração, de 400 metros quadrados, foi completamente destruída, com prejuízo estimado de R$ 200 mil. Em meio aos estragos, o produtor ainda teve dificuldades para ter a energia restabelecida. “Os protocolos, eles davam baixa dizendo que tinha voltado a luz, mas não tinha”, relata. “Todo mundo reclama que está terrível a Copel.”
COMUNIDADES SEM LUZ
Em Tibagi, nos Campos Gerais, o presidente do Sindicato Rural, Mauricio Chizini Barreto, relata que há comunidades há cinco dias sem energia elétrica. “Tenho suinocultores, pecuaristas de leite e avicultores tendo prejuízos. A situação vem se repetindo há tempo, e quando chove piora”, afirma.
Em reunião recente com produtores do município, segundo Barreto, as queixas se concentraram na falta de atendimento da Copel, na ineficiência do Canal do Agro e na demora do serviço terceirizado para religar a chave dos postes.
REGISTRE A RECLAMAÇÃO
Para ter direito a eventual ressarcimento e pressionar por melhorias, é fundamental que o produtor registre todos os problemas e guarde os números de protocolo. A reclamação deve ser feita primeiro na Copel. Se o problema não for resolvido, o consumidor pode recorrer à Aneel.
Copel
– Telefone: 0800 643 7676 (atendimento 24 horas)
– WhatsApp: (41) 3013-8970
Aneel
– Telefones 167 e 0800 727 0167 (segunda a sábado, das 8h às 20h)
– Atendimento humano via chat: chat-aneel.tellus.tec.br
– Formulário no site: gov.br/aneel (Canais de atendimento > Reclame da distribuidora)
– Aplicativo Aneel Consumidor
Fonte: Sistema Faep