Após 70 anos, Estação do Aeroporto se despede: fim de uma era em CM

No saguão silencioso da Estação Aeroviária Teodoro Metchko, o eco dos passos parece trazer de volta vozes e rostos de outras épocas. Foram 70 anos de chegadas e partidas, encontros e despedidas, discursos e apertos de mão. Por ali, passaram três presidentes da República, governadores, líderes religiosos, artistas e anônimos que vinham buscar ou deixar alguém querido. Hoje, o relógio dessa história marca a hora da despedida: o prédio que inaugurou a era da aviação comercial em Campo Mourão encerra sua função original para abrir caminho a novas instalações.

Construída em 1955, a estação não foi apenas um terminal aéreo. Foi palco de episódios que ajudaram a contar a própria história da cidade, desde a recepção de autoridades nacionais até as tardes de espera, quando crianças grudavam o rosto no vidro para ver um avião pousar. A cada decolagem, levava-se um pedaço da vida mourãoense; a cada pouso, trazia-se um novo capítulo.

Inaugurada em 4 de dezembro de 1955 pelo então prefeito Daniel Portella, no último dia de seu mandato, a Estação Aeroviária Teodoro Metchko abrigou momentos históricos. Passaram pelo local três presidentes da República — João Figueiredo, em 1982; Fernando Henrique Cardoso, em 1995; e Dilma Rousseff, em 2013. Juscelino Kubitschek, que queria voltar ao Planalto, em 1963, também esteve ali. Em 1989, Ulysses Guimarães, então candidato à Presidência, desembarcou no local. Governadores, ministros, artistas e líderes religiosos também cruzaram suas portas.

A construção leva a assinatura de um pioneiro de vida singular: Teodoro Metchko. De origem ucraniana e descendente da nobreza por parte de pai, Metchko nasceu em 1896 e chegou ao Brasil em 1934, fixando-se em Campo Mourão. Engenheiro civil formado no México, poliglota com domínio de oito idiomas, construiu no país latino uma usina hidrelétrica e um túnel ferroviário que ligava o México à Guatemala — batizado com seu nome.

Em Campo Mourão, deixou um legado que ultrapassa o aeroporto. Foi responsável pela primeira prefeitura, pela delegacia de polícia, por escolas, pelo Ginásio de Campo Mourão, pelo Colégio Santa Cruz, pelo cinema e pela construção da Capela da Vila Carolo. Também ergueu o primeiro Hospital Santa Casa e ajudou a fundar o Clube 10 de Outubro. No setor madeireiro, abriu serraria e, com o mesmo espírito empreendedor, trouxe o primeiro cinema à cidade.

Sua importância foi reconhecida ainda em vida: tornou-se o primeiro cidadão honorário de Campo Mourão. Morreu em 19 de outubro de 1969, mas seu nome se eternizou na placa da estação. Em 2005, o prédio foi tombado como patrimônio histórico municipal.

O aeroporto municipal, batizado de Geraldo Guia de Aquino, tem história própria. Inaugurado em 1947, foi erguido em tempo recorde: 400 homens prepararam a pista, então conhecida como “campo gavião”, em apenas três dias e meio. O apelido veio das aves que sobrevoavam o local durante a obra. A iniciativa partiu do prefeito Pedro Viriato de Souza Filho, o primeiro eleito pelo voto popular, que buscou incluir Campo Mourão na rota do correio aéreo.

Nos anos 1960, o aeroporto viveu o auge: cinco linhas aéreas — Vasp, Varig, Cruzeiro do Sul, Boa e Sadia — conectavam Campo Mourão a várias cidades do Brasil. Em 1979, no governo de Jayme Canet Júnior, a pista finalmente recebeu pavimentação.

Tentativas mais recentes de restabelecer voos comerciais regulares, como a linha para Curitiba, não prosperaram. Hoje, o espaço entra em nova fase, encerrando um ciclo que marcou a chegada e a partida de histórias, encontros e despedidas que ajudaram a moldar a identidade mourãoense.