Sobrevivendo à Saúde de Campo Mourão
O Tasabendo traz à tona a batalha de uma paciente mourãoense, quando descobriu que tinha um tipo de leucemia incurável, cujo tratamento não é oferecido pela Prefeitura de Campo Mourão. Para dar entrada no hospital Erasto Gaertner, em Curitiba, Gisela de Lima Ribeiro, 31, precisava sair daqui com uma pasta de exames. Em pouco tempo, percebeu que esperar o atendimento local, no seu caso, poderia ser fatal. Impossibilitada de trabalhar, Gisela foi à luta. Custeou seus exames com R$ 8 mil que levantou com as vendas de uma rifa e milhares de doces.
O tempo começou a correr contra Gisela Ribeiro em julho do ano passado. Ela conta que sua saúde já era frágil desde a infância, mas que o diagnóstico da trombocitose (um tipo de leucemia que aumenta exageradamente o número de plaquetas do organismo) mudou sua vida. Com médicos daqui descobriu que precisava de um hematologista e que em Campo Mourão não havia um. Ela teria que recorrer ao hospital curitibano Erasto Gaertner, onde só poderia dar entrada com os papéis que comprovassem sua doença.
Enquanto a doença evoluía, Gisela Ribeiro tentava, sem êxito, agendar as biópsias no atendimento municipal para ingressar no tratamento especializado. Como seu quadro piorou rápido ela já não podia trabalhar. “A gente tem um nível de plaquetas que vai de 150 mil a 450 mil, que é o normal, todas as pessoas têm isso. As minhas chegaram a 2,5 milhões. Quando passa de um milhão já é preocupante, porque causa coágulos, eu tive vários desmaios, amanheci com os olhos roxos várias vezes, enfim, tenho sangramentos…”, relata.
Segundo Gisela, o otimismo lhe foi imposto pela vida, quando sua filha de sete anos chegou em seu quarto e perguntou até quando ela continuaria viva. “Eu disse que não sabia, que só Deus sabe. Daí eu me apeguei com Deus. Você se envolve com outras coisas e decide ocupar a cabeça e ir para frente. Porque quando você está nisso, você acaba conhecendo um monte de gente que também está nisso. E as próprias pessoas acabam te dando força, te incentivando a viver, a vencer, a lutar.”, explica.
Assim, foi lutando contra a depressão que Gisela também conseguiu reagir à falta de amparo da Saúde do município. “…eles me encaminharam para um hematologista que até hoje ainda não saiu o encaminhamento. Está desde março. Não saiu ainda. Aí como eu não conseguia, eu fiz uma rifa e eu fazia os doces para arrecadar o dinheiro. E eu consegui. Paguei R$ 8 mil de biópsias. Daí eu montei a pasta e hoje eu vou lá (em Curitiba)”, comemora.
A doença
Muito agradecida pelos amigos que até hoje compram toda sua produção de doces, Gisela Ribeiro conta que sua situação ainda está longe de ser confortável. “O meu caso não dá transplante, a gente tentou essa hipótese. Não tem cura e não dá transplante porque se você tirar a medula e colocar outra, segundo o doutor, não resolve porque a doença vem do DNA. Então ela (a doença) vai chegar na medula e vai adoecer essa medula saudável. É um tratamento eterno”, narra.
Incomodada pelos efeitos colaterais dos remédios quimioterápicos que toma – especialmente sobre os rins – a jovem conforma-se no fato de estar com 900 mil plaquetas e na esperança de chegar às R$ 500 mil. “O que mais me incomoda hoje são os meus ruins, porque a medicação paralisa os rins. A cada 15 ou 20 dias eu tenho problema nos rins. As dores hoje são nos rins. Antigamente eram dores no corpo por causa das plaquetas altas. Como eu brincava com o doutor, chegavam a doer os ossos. Eram dores que não tinha como explicar. Elas não tinham hora”, lembra.
O tratamento dá à Gisela uma boa expectativa de vida, mas a causa da doença ainda é desconhecida. “Ninguém sabe dizer da onde vem. É uma mutação das células. Eles não sabem dizer o porquê. Existem três casos: quando a pessoa retira o baço; quando a pessoa sofre uma hemorragia muito grande, mas muito grande; ou sendo maior de 75 anos. O médico brincou que eu devia me encaixar na terceira, como alguém que tem 75 anos, porque não tem a causa”, brinca.
A Saúde
O secretário de Saúde de Campo Mourão, Márcio Alencar, explicou que quando a Prefeitura não tem um especialista de uma determinada área (cadastrado no SUS), os pacientes – quando encaminhados por médicos da rede municipal de Saúde – são conduzidos à rede estadual de Saúde. “Em Campo Mourão tem hematologista, mas não cadastrado pelo SUS. Nesse caso encaminhamos a pessoa no Estado que direciona a pessoa para onde há (o especialista)”.
Alencar argumentou que a paciente desta matéria deu entrada com pedido de hematologista no dia 28 de janeiro deste ano e que ela não retirou a guia para a consulta, que estava disponível no dia 17 de março. Ele acrescentou que para casos de atendimento a tratamentos fora da cidade – encaminhados pelo município – a Prefeitura dispõe de passagens para o paciente e, quando indispensável, para acompanhante.
Foto da capa: Acássio Marcondes
Foto interna: Arquivo Pessoal
