Moacyr Reis Ferraz, codinome Antônio””
Moacyr Reis Ferraz, codinome ‘Antônio’
A Academia Mourãoense de Letras promove nesta quarta-feira, 10, um ciclo de palestras como tema “Atuação do Regime Militar em Campo Mourão: registros de uma guerra surda em Campo Mourão”, com os professores José Eugênio Maciel e Nelci Veiga Mello, membros da AML. O evento ocorrerá às 19h30m, no anfiteatro da Unespar/Fecilcam.
Recentemente visitei o Arquivo Público do Paraná e acessei os documentos do extinto Departamento de Ordem Política e Social, o conhecido DOPS, criado para manter o controle do cidadão e vigiar as manifestações políticas na ditadura pós-64 instaurada pelos militares no Brasil. O DOPS perseguia, acima de tudo, as atividades intelectuais, sociais, políticas e partidárias de cunho comunista.
Ao folhear o catálogo dos fichários do DOPS, encontrei o nome de Moacyr Reis Ferraz, ex-vereador de Campo Mourão. Moacyr usava o codinome “Antônio”. Ele foi vereador de 1960 a 1963. Durante seu mandato propôs a criação de uma espécie de Tribuna Livre, onde os munícipes poderiam apresentar suas reivindicações diretamente aos vereadores, após as sessões. Apresentou voto de louvor a astronautas soviéticos e elogiou, na tribuna do Legislativo, a Revolução Russa de 1917. Moacyr também era presidente da União dos Trabalhadores, que ajudava os homens do campo.
Nas eleições municipais de outubro de 1963, ficou na terceira suplência da acirrada eleição. No livro da história da Câmara Municipal, de minha autoria, no segundo volume, relato com detalhes o procedimento da cassação do terceiro suplente do PTB. Foram utilizados métodos obscuros, uma agilidade impressionante e uma justificativa inaceitável. Moacyr representava uma ameaça. E como toda ameaça, necessitava ser massacrada, extirpada e se possível, eliminada.
Ao ler o processo do ex-vereador no Arquivo Público, depois de 35 anos de sua abertura, senti nas fotos a tristeza e a amargura de um homem que passou parte da sua vida de maneira clandestina. Ora fugindo da policia, ora preso. Os documentos relevam a voz incessante do sofrimento ainda “vivo”. Um amigo, que é cientista político e me acompanhava na pesquisa, sentiu pela primeira vez o terror do Regime Militar.
Em 1975, Moacyr foi fichado por ter sido convidado para assessorar o então candidato a senador Enéas Farias. O processo contém 33 folhas de interrogatório, algumas marcadas com o carimbo “confidencial”. São relatos detalhados, não somente do acusado Moacyr, mas de seus amigos, prova concreta da agilidade e precisão dos órgãos de repressão dos militares.
Moacyr não teve uma vida fácil até 1985, quando os militares voltaram para a caserna.
Durante os anos sombrios, Moacyr passou por aperturas, crises, problemas de saúde, trabalho com baixa renumeração. No fim do último depoimento, Moacyr Reis Ferraz cita que havia sido “interrogado suficientemente e as próprias declarações de outros interrogados mostram o seu grau, pois apesar de quererem apresentar mais implicações, estas não existem e as que existem estão evidenciadas”. É a voz de um homem cansado das amarguras de um sistema político de eliminação.
A história de Moacyr Reis Ferraz deve permanecer viva, assim como não podem ser esquecidos os que interromperam sua trajetória política e os seus motivos. Mas acima destes pontos, deve ser sempre lembrado que a compreensão da História é a melhor vacina contra a volta das tiranias.
Quando a Câmara Municipal completou seu cinquentenário, em 1997, Moacyr foi convidado para as homenagens aos ex-vereadores. Gentilmente declinou o convite para evitar rever aqueles que o perseguiram. Claro que, naquele momento, a mágoa e o ressentimento do sofrimento dos anos da ditadura falaram mais alto.
Moacyr Reis Ferraz, “codinome Antônio”, é a pergunta que não quer calar da história de Campo Mourão e dos tempos sombrios que o Brasil vivenciou de 1964 a 1985.