“Tudo por poder”, por Aline Fernanda, na coluna “Por escrito”

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Certa vez um vinhateiro resolveu expandir os seus negócios, e para isso precisava contratar alguém de confiança, para que este tomasse conta da loja no outro vilarejo.

O vinhateiro pensou, pensou e pensou… Ninguém lhe vinha à cabeça. Então, enquanto tomava uma cerveja em um bar qualquer longe de casa, escutou dois senhores conversando. Eles falavam de um jovem rapaz que havia chegado à cidade há pouco tempo e que havia ganhado notoriedade, por sua competência e profissionalismo.

O homem ficou intrigado; ele já tinha ouvido a respeito desse jovem. Tinha ouvido um boato de seus empregados, onde estes comentavam sobre o talento do tal jovem.

A curiosidade foi tanta, que o vinhateiro resolveu saber mais a respeito. Ele foi até a cidade em que o rapaz morava e descobriu que ele trabalhava com pesca.

Ficou intrigado de novo. O jovem trabalhava com peixes e não com vinhos, então certamente não saberia nada sobre o seu negócio. Ele certamente não serviria para o cargo.

Pensou mais um pouco e chegou a uma conclusão: contrataria o tal jovem. Se ele era tão bom quanto diziam, certamente daria o seu melhor e cuidaria bem da sua loja de vinhos.

O rapaz aceitou a proposta do vinhateiro. No começo ficou um pouco sem jeito, sem saber como agir. Afinal, aquele não era o seu ramo. Ele nunca havia pensado que um dia pudesse trabalhar com vinhos. Seu sonho foi sempre trabalhar com a pesca, no mar, com os peixes… Tudo o que ele sempre quis.

Todos falavam do seu trabalho; diziam o quanto ele era bom. Aquilo o deixava feliz, pois sabia que as pessoas haviam reconhecido o seu esforço para chegar até ali.

O jovem gostaria de continuar com a pesca, mas sabia que o salário era baixo e que os negócios não iam nada bem. E ele precisava cuidar de sua mãe que estava doente e de sua irmãzinha, pois agora era o homem da casa, já que seu pai havia falecido.

Então, não viu outra opção, senão aceitar a oferta do velho vinhateiro.

Uma semana se passou, e o jovem já havia começado no seu novo trabalho.

Ele demorou para se adaptar ao novo emprego, mas procurou dar o seu melhor. Ele sempre dava o seu melhor.

Não demorou muito e o jovem ganhou a confiança do patrão. Recebeu elogios e agrados. A sua fama aumentava a cada dia. Ele que não gostava de vinhos, começou a pegar apreço pelo seu novo emprego. Começou a cogitar a possibilidade de continuar neste ramo.

Vários meses se passaram e o vinhateiro a cada dia se impressionava mais e mais com o comprometimento do jovem rapaz. Nunca ele havia tido um empregado tão responsável e amável.

O homem pretendia promovê-lo a Gerente Geral, ele tomaria conta de todas as suas vinhas. Estaria abaixo apenas dele.

Numa noite de inverno, um casal de empregados decidiu chamar o patrão para um jantar em família. Em comemoração ao nascimento de seu primeiro filho.

O patrão muito atencioso com os mesmos, resolveu aceitar o convite e foi ao jantar.

Chegando lá, um pouco depois do evento, várias pessoas conversavam e ele ouviu um boato de roubo. Que um vinhateiro estava sendo roubado por um de seus empregados.

Aquela notícia o deixou desconfiado. Quem poderia ser? – pensava ele.

Ficou curioso e decidiu entrar na conversa. Os empregados se entreolharam e contaram a ele; que o vinhateiro de quem falavam, era ele mesmo. E que, quem o estava roubando era o jovem que ele tanto confiava.

Aquilo o deixou arrasado. Não poderia ser verdade. Ele nunca imaginou que o jovem poderia ser capaz de tal façanha.

Não lhe restava dúvidas: ele demitiria o tal ladrão.

No outro dia, ele mandou que um dos seus empregados que cuidavam da área de contratações e demissões, o demitisse. Porque ele não tinha coragem de olhar na cara do ladrão.

O jovem não entendeu o porquê de ser demitido. Ele não havia feito nada. Não tinha motivos para ser demitido. Ele sempre procurou dar e fazer o seu melhor.

Organizou as suas poucas coisas e saiu de cabeça baixa. Todos os seus colegas de trabalho o chamavam de ladrão. E aquilo o deixava triste e irritado. Ele não era ladrão, jamais roubaria alguém. Mas o que o irritava ainda mais, era saber que nenhum daqueles que se diziam “amigos”, foram capazes de ajudá-lo e de defendê-lo. Poxa, eles sabiam que ele era inocente.

Mas é claro! Lógico que eles não iriam ajudá-lo, pois mesmo que soubessem que o rapaz era inocente, precisavam bajular o patrão, porque tinham que garantir seus empreguinhos para os próximos anos. Pelo menos a moça do cafezinho ficou ao seu lado – a única que era sua amiga de verdade. A única que tentou defendê-lo.

A justiça da cidade era dura. E quem era declarado ladrão, recebia pena de morte. Não deu outra. O jovem foi condenado à forca, e morreu na mesma. Morreu alegando sua inocência.

Duas semanas se passaram e o vinhateiro estava muito atrasado. Depois da morte daquele jovem ladrão, a empresa estava uma bagunça. Mesmo que ele não quisesse admitir, o homem que ele havia colocado no lugar do ladrãozinho, não era tão bom quanto ele.

Ia saindo da empresa, atrasado para o batizado de sua netinha, quando se lembrou que havia esquecido de pegar a lembrancinha dela, que tinha deixado dentro do cofre em sua sala, no escritório da empresa.

Voltou correndo e entrou em disparada na sua sala e o que viu lá o deixou de boca aberta.

Viu o empregado em que ele tinha colocado no lugar do jovem falecido, pegando o dinheiro de seu cofre e colocando em uma sacola.

O verdadeiro ladrão olhou para seu patrão, assustado. Ele tinha inventado aquela mentira, porque queria o lugar do jovem metido.

O vinhateiro sentiu a consciência pesar. O jovem era realmente inocente.

MORAL 1: O líder que dá ouvidos a meros boatos – sem ter certeza se são verdadeiros ou não – e que não tem empatia, não merece ser líder.

MORAL 2: A inveja e a mentira, são os piores sentimentos. Elas destroem amizades e causam a desgraça de inocentes.

Aline Fernanda, 18 anos, farolense, estudante de Marketing. Acredita que os livros são à base de tudo. Quando não está lendo está criando novas histórias.

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