“Tela humana”, por Letícia Voidelo Messias, na coluna “Por escrito”
O corpo é um diário, um templo, uma natureza divina, mas este tem algo a mais, como escritas e desenhos, paredes pintadas e, cores que trazem vida, muitas vezes mal compreendidas. As imagens dão vida aos sentimentos, dedicatórias e homenagens destacam o amor e a cumplicidade. Cada agulha leva uma história, muitos expressam as dores da vida, outros uma amizade recíproca, uma rebeldia adolescente, um desfecho amoroso, um tributo ou uma simples e ousada vontade incontrolável de eternizar na pele seus sentidos por meio da tatuagem.
Elas são como droga que vicia, em questão de segundos, é como numa dependência, te faz buscar outros sentidos a serem eternizados na epiderme. Superficiais apenas aos olhos, a maioria está cicatrizada na alma, memórias e lembranças são sentimentos em forma de tinta. Algumas são delicadas outras bem grotescas, muitas procuradas por “estar na moda”, tem aquelas perfeitas como também as que um dia tiveram sua glória e futuramente serão cobertas, cada uma com sua essência, na medida certa.
Dor, a isso é relativo, há quem diga que não sente nada, outros choram e até desmaiam, anestésico até existe, mas nada melhor do que você suportar e superar a dor. É como se por algum motivo aquele momento possibilita-se mais forças para poder encarar o dia seguinte. Mesmo com a dor, acompanhar a trajetória das agulhas é fenomenal, uns tremem, outros mantém os olhos fechados, outros pedem para parar nos primeiros 2 segundos e, durante o processo, dizem nunca mais vão fazer aquilo novamente, mas ao término estão com milhares de ideias para os próximos desenhos que irão fazer parte da tela humana.
Pré-conceito? Há em um mundo no qual o ser humano se preocupa mais com status do que com o próprio amor ao próximo, seria extraordinário que “telas humanas” fossem bem vistas ou aceitas, mas o amor por tatuagens vai além disso, ultrapassa barreiras da discórdia e aproxima fanáticos em comum. Elas não interferem em caráter ou índole, elas não têm que ser compreendidas aos olhos dos outros, são incógnitas e assim devem permanece, satisfazendo apenas seu amo.
Desse modo elas se espalham pelo mundo, como praga, sendo cultivada por adoradores, e atribuída as culturas. Idolatrada e doutrinada por seus servos e condenada com severidade pelos opostos. Atraindo olhares curiosos e, espalhando arte por onde passa mesmo para quem não a aprecia.
Letícia Voidelo Messias, natural de Campo Mourão, 31 anos, sócia-proprietária e Body Piercing no Studio Adilson Tattoow. Amante de tatuagens.
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