Professor Pedro Paulo publica hoje na coluna “Por escrito”
POLÍTICOS, POLÍTICAS E CERCAS
Finalmente parece que no Brasil os escândalos políticos chegaram ao nível do inaceitável e isso em todas as esferas de governo. Ao contrário do que possa parecer se existe algo de bom para pessoas e sociedades é chegar nesse limite, no limite do não permito mais, do agora em diante as coisas serão diferentes, no limiar das transformações que não podem mais esperar.
Assim como as pessoas precisam aprender a colocar ponto final em suas demandas de vida na vida, as sociedades também precisam desse aprendizado para não correr o risco de suicidar-se enquanto coletividade. E, como todos sabem, finalizar processos é doloroso mesmo que a alternativa sejam as dores por permanecer onde está que, tal qual o parto que não acontece, mata mãe e filho e deixa de legado familiares profundamente imersos em sofrimento perpétuo.
Sofrimento. É este o sentimento que hoje grita na alma dos brasileiros por saberem-se, finalmente, órfãos dos políticos e das políticas que os abandonaram na solidão da distancia e da inexistência. Por séculos, no Brasil, a política foi distante do seu elemento principal, o povo, e não há orfandade mais dolorida e revoltante que aquela sentida por quem tem pai. A orfandade produzida pelo abandono, pelas cercas construídas para deixar o outro do lado de fora.
Infelizmente, os políticos construíram suas políticas que construíram seus políticos à partir das cercas da segregação e é justamente a consciência dessas cercas que hoje está emergindo no país. O povo do lado de fora agora percebe a existência do limite, do marco que o separa daquele que recebe auxílio moradia, passagens aéreas “grátis” para a família, super-salários, benefícios sem fim e privilégios indizíveis enquanto ele, do lado de fora, tem apenas que cumprir com a obrigação de pagar a conta dessa farra toda.
Ora, é a condição do limite que me faz pensar o outro como parte de mim, nos desejos e nos medos, nas perdas e nos ganhos, no ódio e no amor, na acomodação e na revolta e, sendo assim, nada mais justo que eu comece a pensar o outro, o do lado de dentro da cerca e que me deixa do lado de fora, como justo merecedor do sofrimento que eu sofro e pagador das contas que eu pago. Eis aqui, portanto, o grande ganho advindo de tudo o que está acontecendo, a revolta libertadora que me permite enxergar aquele do lado de dentro como carga pesada demais para carregar e que eu não quero mais ter como peso. E que assim seja.
Aos políticos e às políticas, bom seria que fossem refeitos em bases diferentes, tendo o despudor de não construir cercas e sem a mínima vergonha em poder se economizar como coisa de gente feita por gente para gente. Se assim for, a máxima que diz que todo poder emana do povo para o povo, pode se efetivar como verdade e não apenas como o ditado de alguém um dia dito em algum lugar. Se assim não for, que recaia sobre aqueles que estão do lado de fora da cerca, a coragem necessária para provar aos do lado de dentro que arrependimento é sempre tarde demais.
Pedro Paulo Rodrigues Cardoso de Melo
Psicólogo Clínico e Empresarial; Psicopedagogo; Professor e Coordenador do Curso de Psicologia e da Pós-Graduação em Saúde Mental da UNICAMPO; Palestrante e Conferencista.
