Professor Pedro Paulo publica hoje na coluna “Por escrito”

pedro

EDUCAÇÃO: MANIFESTAÇÕES NECESSÁRIAS

Estamos vivendo épocas de manifestações, greves, gritos e conflitos país afora nas mais variadas áreas e setores da sociedade, inclusive na educação. Sem analisar o mérito das mesmas e nem, muito menos, discorrer sobre medidas que foram ou não foram tomadas antes ou agora por este ou aquele governo, de uma coisa eu sei: no Brasil a educação precisa, urgentemente, ser radiografada e submetida em caráter de urgência a medidas corretivas radicais se quiser proporcionar à sociedade a possibilidade de um futuro promissor.

Há décadas que o Brasileiro ouve sem parar que Educação é prioridade nacional, estadual, regional, municipal e até mesmo, distrital. Há décadas, também, que ouvimos a retórica de que tudo e mais um pouco deve ser feito pela Educação e que esta representa a maior prioridade em políticas públicas e privadas do país. Não se engane e nem se alegre: tudo isso não passa de retórica e de mentira. Aliás, retóricas e mentiras, muitas mentiras. Assim mesmo, no plural.

Se as autoridades brasileiras (em educação ou não) tivessem realmente o apreço pela educação que eles dizem que tem, o país teria parado quando, após a divulgação, na penúltima semana do mês de fevereiro, do resultado de um teste realizado em São Paulo para professores onde, segundo a própria Secretaria Estadual de Educação (e, acredite se quiser), três mil professores tiraram nota zero e mais da metade não conseguiram atingir a nota mínima exigida. Se as autoridades brasileiras tivessem a Educação como prioridade número um, como eles dizem que tem, tal desempenho deveria ter provocado alvoroço muito maior que o provocado pelas outras crises que enfrentamos no momento.

Mas, quando pensamos que já vimos de tudo o que pode haver de pior no nosso país, eis que nos surpreendemos sempre com algo a mais. Explico: através de uma liminar, uma juíza de não sei de onde “caneteou” que, até mesmo os professores que tiraram nota zero, estão aptos para assumir as disciplinas que eles nada sabem e ministrá-las em salas de aula para alunos que também nada aprenderão. Agora, imagine a cena: um professor que não sabe a diferença entre um substantivo e um adjetivo ministrando aulas de português, sendo perguntado por um aluno onde ele precisa usar uma determinada pontuação. Dá para imaginar e acreditar nisso? O pior é que dá, pois esse teste, apenas veio nos revelar aquilo que já existe há muito tempo e que todos nós também sabemos há muito tempo. Quer uma prova disso que estou falando? Pegue um texto qualquer, em inglês, de duas páginas (apenas de duas páginas. Não precisa mais do que isso) e peça para o seu professor de inglês ler o mesmo em português e veja o resultado. Depois dele fazer essa leitura (a chance dele não fazer é de quase 100%), peça para ele ler novamente outro texto, também de duas páginas, só que no caminho inverso: um texto em português para ele ler em inglês e espere novamente pelo resultado. Se ele não conseguir fazer tal proeza que é o básico do básico do básico para um professor de inglês, pegue suas coisas e vá embora, saia da sala, escolha ir para qualquer lugar, mas não fique lá.  Se ficar, estará se enganando e se roubando.

Agora, bom mesmo foi o argumento da juíza (que, apenas a título de sugestão, bem que poderia colocar seus filhos nas escolas onde esses professores lecionam), para justificar o que em nenhum lugar normal do mundo se justifica: “os alunos não podem ficar sem aulas.” Que aulas? Mas é claro que podem. O que não deveria poder era um monte de alunos ficarem fazendo de conta que estão tendo aulas com professores que (estes sim, precisam de aulas) não estão nem um pouco preparados para o exercício da função. Imagine se a moda pega e se espalha por outras áreas de conhecimento. Pense em alguém se submetendo a uma cirurgia com um Médico que tirou nota zero na disciplina de cirurgia geral. Ou alguém tomando um ônibus com um Motorista que tirou nota zero na disciplina de direção de rua. Ou alguém comprando um apartamento planejado por um Engenheiro que tirou nota zero na disciplina de cálculo estrutural. Tudo isso é tão impensável que nem em fantasia nos permitimos fazer tais imaginações. Mas, inexplicavelmente, isso é real na educação que nós fazemos e temos.

Seria muito bom, mas muito bom mesmo se nas reivindicações dos Professores, as mesmas abrangessem outras revoltas na pauta, como: melhor formação profissional, capacitação continuada DE VERDADE e de qualidade no lugar daqueles famosos cursos de capacitação que não passam de atualizações em burocracias “internas” e verborragias ideológicas, valorização do mérito e premiação de resultados, como acontece, aliás, em TODOS os países do mundo onde a educação é de excelência reconhecida.

A sociedade precisa internalizar a verdade de que a educação não pertence aos professores, mas a ela própria que é quem a banca, a segurança pública não pertence aos policiais, mas a ela própria, que a sustenta, a saúde pública não é propriedade dos médicos, mas dela também, que a paga e assim por diante. Que se lute e se brigue por direitos, isso é legítimo e direito, mas que se tenha a honestidade de reconhecer que qualidade requer revoltas muito mais profundas.

Pedro Paulo Rodrigues Cardoso de Melo

Psicólogo Clínico e Empresarial; Psicopedagogo; Professor de Graduação e Pós-Graduação; Coordenador da Graduação de Psicologia e da Pós-Graduação em Saúde Mental da UNICAMPO; Palestrante e Conferencista.

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