Por escrito: “Na janela”, por Fran Iamaguchi
Na Janela
Viveu a vida toda a olhar pela mesma janela, mora em uma casa onde há diversas paisagens para serem admiradas, mas sempre preferiu olhar o mundo do mesmo lugar.
Naquela manhã levantou-se e caminhou com a dificuldade típica da idade até a velha amiga que sempre lhe revelava o mundo. Acomodou-se e olhou.
Mas qual não foi o seu espanto quando percebeu que agora havia um prédio em frente à janela. Esquivou-se, torceu e contorceu, mas só havia o prédio para ser visto.
Era demais, uma ofensa, um absurdo. Estupefata virou-se e pela primeira vez em sua vida percebeu que do outro lado da sala havia… uma porta. Algo aconteceu dentro de si, era quase uma visão apocalíptica aquela porta ali, cuspindo em sua cara e ao mesmo tempo oferecendo-se.
Vagarosamente atravessou o abismo que as separavam e tocou a maçaneta, sentiu um arrepio por todo o corpo. Corou, aquilo parecia até uma indecência, fez o sinal da cruz, fechou os olhos, abriu a porta.
O Sol brilhava no céu e aos poucos seu brilho invadiu a sala, queria abrir os olhos, o coração palpitava. Olhou e vagarosamente os olhos começaram a avistar um borrão claro, era a vida lá fora. Seus pulmões encheram-se de ar, por um momento a idade já não era mais um empecilho, era a vida voltando para ela.
Deu um passo, mas a falta de costume de olhar pela porta a fez esquecer-se que ali havia dois degraus. Caiu, morta.
Fran Iamaguchi
Meu nome é Franciele, maringaense e moradora de Campo Mourão há 4 anos. Sou Bióloga, Farmacêutica e Mestre em Biociências pela UEM. Atualmente atuo como farmacêutica e atriz amadora no grupo Zetetikós de Campo Mourão.
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