Por escrito: “Carta para Juliana, minha irmã”, por Thaél Olegário Junior

Tay


Carta para Juliana, minha irmã.

Tens trinta e oito anos. És jovem, muito jovem. Dissestes-me que foste feliz algum dia, eu acredito!

Não realizastes seu maior sonho: ser mãe, mas com boa vontade e sem esperar nada em troca, cuidastes dos filhos dos outros, filhos de seus filhos, inclusive de mim. Cuidastes de três sobrinhas como se fossem tuas. Não destes a luz, mas sabias bem como era ser mãe.

Cuidastes de teu marido, sempre o acompanhou por dezenove anos de união. Fizestes amizades que durariam para sempre, cultivastes amores, sonhos, me ensinastes a gostar de boa música, me ensinastes a gostar de rock e a apreciar as coisas boas da vida.

A cada nascer de uma nova manhã, constaste-me histórias de suas viagens, de seus amigos e das aventuras de tua vida. Mostrastes-me o verdadeiro sentido do amor e da amizade.

És uma pessoa simples, sem grandes pretensões e com pouca vaidade, “não sabes nada do mundo, não entendes de política, nem de economia, nem de ciências e filosofia”, detestas matemática e geografia.

Herdastes de nossos pais uma bússola para a orientação na vida, uma centena de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto vivestes, vai vivendo.

És uma menina durona, mas sensível. As grandes e pequenas tragédias e catástrofes, choras ao ver bebês abandonados nos noticiários da TV (já te vi chorar), choras quando brigas, quando discutes, choras quando sofre, quando ri e choras quando tem medo.
“Tens grandes ódios por motivos que já perdestes a lembrança, tens grandes afeições e dedicações que assentam em coisa alguma”. Vives.

Para ti a palavra família é um alento e o alicerce que sustenta o circulo de tua caminhada. De dor sabes alguma coisa, vistes nosso pai sair de casa, vistes tua melhor amiga morrer num grave acidente, vistes nossa mãe chorar por ti e por mim, vistes nosso pai adoecer, mas pela maldade das circunstâncias não vistes nosso pai morrer.

Desde sempre carregas contigo o teu pequeno casulo de interesses, gostas de jogos de internet, de filmes de comédia romântica, gostas de festas e de longas conversas. Gostas de crianças, mesmo que não sejam tuas.

O teu sorriso é como um foguete de cores, tua gargalhada, a mais escrachada, é a tua marca mais autêntica. Só em ti vi tanta alegria. Teus olhos castanhos são lâmpadas transparentes, em ti me refugio.

Como tu não vi rir ninguém. Passamos maravilhosos momentos juntos. “Agora estou diante de ti e não entendo, sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Viestes a este mundo, mas não destes conta de saber o que é o mundo”.

“Chegas ao fim de tua vida, e o mundo ainda é para ti, o que era quando nascestes uma interrogação, um mistério inacessível, algo que já não faz mais parte de tua herança”.

Aperto tuas mãos finas e entrelaço minhas mãos nos seus dedos, tão perfurados por meses de tratamento. Passo a minha mão pela sua face e pelos seus cabelos partidos pelo peso da dor e de seus carregos e continuo a não entender e a não aceitar que tão jovem fostes adoecer.

És bela e muito inteligente, tens um senso de humor peculiar, mas também se irritas com facilidade, és firme em tuas opiniões e inconformada com as coisas do mundo, porém aceitastes, resignada, os rumos de tua vida.

“Diante de tudo isso eu me pergunto: Por que foi então que te roubaram o mundo? Quem te roubou? Talvez entendo eu, e pudesse te dizer o como e o porquê”, pois tantas vezes desejei trocar de lugar contigo, para te aliviar do peso de uma sina que foi tua, mas que também era minha.

Mas agora nenhum esforço, por menor que seja, valerá a pena. O mundo continuará sem ti e sem mim, dissemos um ao outro tudo que mais importava? (Nem a eternidade seria o suficiente para dizer o que sinto por você). Estivemos juntos, unidos pelo laço do amor, mas o fio cortado.

Queria ter feito muito mais por ti, mas já não sei mais o que dizer, o mundo que te era devido, agora é o mundo que te deve muito. Fico com essa culpa de que não me acusas e isso é ainda pior.

Mas por que minha irmã? “Por que te sentas tu na soleira de tua porta aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes com a tranquilidade serena de teus trinta e oito anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: O mundo é tão bonito e eu tenho tanto medo e tanta pena de morrer!”
“É isto que eu não entendo – mas a culpa não é tua”. Sinto saudades te amo para sempre! (Adaptado de Carta a Josefa, minha avó, de José Saramago).

Thaél Olegário Junior, é bacharel em Marketing e acadêmico do curso de Artes Cênicas da UEM – Universidade Estadual de Maringá.