Por escrito: “As dores de estar vivo”, por professor Pedro Paulo

Pedro Paulo Rodrigues 2

AS DORES DE ESTAR VIVO

Viver dói, machuca, faz sofrer. Tão logo tomamos consciência de que somos gente, a vida começa a nos cobrar o preço por estarmos nela vivendo em meio aos demais e, acreditem, o preço é alto e a conta nunca deixará de ser cobrada em todo seu percurso e isso por uma razão muito simples: somos humanos vivendo com outros humanos e não há nada mais causador de sofrimentos do que homens e mulheres em estado de convivência com consciência. Por isso agimos tanto “sem pensar”, de qualquer jeito, “destrambelhadamente”. Antes de percebermos (tomarmos consciência), já falamos, já fizemos, machucamos e nos machucamos também. A inconseqüência humana em suas ações é, muitas vezes, mais um mecanismo de defesa psíquico da nossa consciência que apenas irresponsabilidade, já que irresponsabilidade necessita de consciência para ser posta em ação.

Para começar, o homem sabe que ele é homem e que está vivo e saber desse saber nos faz sofrer. Diferente dos outros animais que apenas vivem, nós sabemos que vivemos como nós somos e como nós não somos também e isso já é um complicador. Saber-se no mundo nos obriga a passar pela vida se dando respostas para tudo e tendo que encontrar razões para escolhas e decisões. É por isso que é tão difícil decidir e escolher e não há nada mais aliviador que escolher e decidir, mesmo que de maneira errada. Não decidir fazer uma escolha é um dos maiores pesos que carregamos e um dos maiores sofrimentos também. “Eu fico ou não fico no meu casamento”? “Mudo ou não mudo de emprego”? “Faço ou não aquela cirurgia”? Passamos pela vida precisando escolher e depois disso decidindo entrar em ação ou não (a ação de não agir) e isso, definitivamente, não é fácil. Na verdade escolha fácil não é escolha e decisão fácil não é decisão.

Muitas vezes queremos nos livrar desse primeiro causador de sofrimento humano tentando abraçar a ilusão de que podemos simplesmente não querer saber de nada. Quantos são aqueles que já não se sentenciaram com o famoso: “não quero mais saber de nada”? Doce e cruel ilusão pois, o homem é condenado a ele próprio e à sua fatídica condição de não poder não saber. Ou seja, mesmo nos esforçando, lutando, treinando e ensaiando, jamais sairemos da condição de nos apropriarmos das nossas vidas e do nosso mundo pela razão e isso é, de longe, a maior causa de sofrimento para nós.

Sofremos porque sabemos que somos mortais; frágeis e sujeitos à doenças; que a vida dos outros não nos pertence; que o mundo não foi feito por nossa causa e que a vida não está nem ai para nós. Sofremos porque estamos vivos e somos vivos sabedores disso tudo e é por isso que queremos sumir, ir para uma ilha deserta apenas com uma rede para descansar, queremos paz para nós mesmos de nós mesmos. Talvez seja por isso que a natureza, na sua infinita sabedoria nos brinda com a sua maior obra: a finitude para tudo aquilo que é vivo, cessando dores e sofrimentos que chegam ao fim em quem chega ao fim, mas adicionando dores e sofrimento aos que permanecem em forma de saudades e, como dissemos anteriormente, por todas essas dores que nos machucam tentamos abraçar a ilusão de que podemos simplesmente não querer saber de nada.

Ilusão. Foi ela, a ilusão, o nosso primeiro remédio natural contra as dores que a vida nos inflige. A ironia consiste que ela é também produto da nossa racionalidade, ou seja, produto da mesma natureza que nos faz sofrer e não um produto do acaso ou das casualidades e é essa a razão da ilusão ser algo de uma complexidade extremamente refinada. A ilusão é tão complexa que nunca pode ser imposta ao outro e nem a nós pelo outro, cada pessoa é a única pessoa capaz de lidar com a sua própria ilusão. É igual às outras complexidades humanas totalmente pessoais como a morte, por exemplo. Ninguém pode morrer por ninguém e nem pode ser morrido por ninguém. Ninguém pode amar pelo outro e nenhum outro pode amar o meu amor por mim, só eu. O outro me engana, mas não pode me iludir ao passo que eu me iludo, mas não posso me enganar, mas posso enganar o outro sem jamais poder o iludir também. E de ilusão em ilusão fomos nos inserindo no mundo das nossas dores desde que temos consciência de nós e da natureza para nos dar respostas.

Pedro Paulo Rodrigues Cardoso de Melo
Psicólogo Clínico e Empresarial; Psicanalista; Psicopedagogo; Professor de Graduação e Pós-Graduação; Coordenador de Psicologia da UNICAMPO; Palestrante e Conferencista.

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