Por escrito: “A Bela adormecida no século vinte e um”, por Michel Patrício
A Bela adormecida no século vinte e um
Era uma vez, há 100 anos, um homem muito rico, e ele tinha uma única filha, por nome: Bela. A menina crescia e ia se tornando, cada dia, mais linda, e também muito levada.
Certo dia, o pai foi viajar e contratou uma jovem para tomar conta da filha. Coitada da mulher! Ela era tão atrapalhada que sempre virava motivo de piada da menina. Ela confundia açúcar com sal, também porque a filha do patrão trocou o sal de pote com o açúcar; dormia quando começava a ler um livro para a pequena, e sempre acordava com os cabelos cheios de melado; e quando tentou ensinar a criança a costurar acabou se furando com a agulha e a Bela ofereceu remédio, mas era pimenta.
Cansada de tantas estripulias, a mulher, que era uma aprendiz de bruxa, resolveu amaldiçoá-la. Fez um contrato em que estava escrito: quando a menina completasse quinze anos e se feri-se cairia em um sono profundo e, dormiria até o tempo em que um homem a encontrasse e lhe desse um beijo, desde que tivessem passados cem anos. O contrato foi feito, agora, precisava fazer a menina assinar. Pensou, pensou, e descobriu uma artimanha para usar.
Resolveu usar uma artimanha. A mulher, que se chamava Matilde, perguntou à menina:
– Bela, você se acha muito esperta. Não é mesmo?
– Eu não me acho, eu sou – disse a garota.
– Você é? Por acaso já sabe escrever seu nome?
– Sei, sim.
– Sabe nada!
– Sei
– Então, prova! – apontando o contrato e dando a pena para a menina escrever seu nome.
A menina assinou e, em seguida dormiu. Mas, imediatamente, ouviu-se um grito:
– Matilde! O que você fez?
Era o mestre da jovem bruxa atrapalhada que aparecera. Seu nome era feiticeiro Trajano. Ele veio porque ela fez algo muito mal e, seria punida por isso. Ela com muito medo e gaguejando disse:
– Nada não, mestre.
– Eu vou dizer, então, o que você fez. Você enganou uma criança inocente, a maldiçoou, só por que ela te pregou umas peças?
– Desculpa, mestre. O que vai acontecer comigo?
– Você condenou a moça a viver em um mundo onde as pessoas pensam apenas nelas mesmas, não tem paciência e consideram os outros como simples objetos. Por isso a sua condenação, vai ser virar um objeto: um quadro de parede, um simples desenho. Você só ganhará vida quando a menina estiver sozinha. E, quando ela encontrar alguém que ame de verdade, você voltará a ser gente de novo.
– E como terei certeza que a menina vai me levar?
– Eu acrescentei essa linha no contrato: “se perder o quadro em que está fotografada, a Matilde morrerá, se não tiver encontrado o seu verdadeiro amor.”
Nesse momento, Matilde virou um quadro e, a menina pendurou-o na parede de seu quarto. Uma hora depois, seu pai chegou e descobriu o contrato que a filha assinara e, deu ordem a seus empregados que não era para deixar que sua filha saísse, nunca mais, do seu quarto até o dia do seu casamento.
Quando a menina completou quinze anos, uma abelha entrou em seu quarto e a picou, e ela caiu, imediatamente, em sono profundo. O pai percebendo que o prato de comida não retornou, entrou em seu quarto, vendo a filha dormindo e seu dedo picado pelo inseto. Chorou. E vendo que não pôde protegê-la da maldição, resolveu abandonar a casa e ir pra muito longe. A mata cresceu em torno da casa, escondendo-a de todas as pessoas que por ali passaram.
Passou–se muito tempo, Gustavo foi à casa de João, e convidou-o para acampar na mata. João disse:
– Eu?! No meio do mato, nem pensar! Não, vou, não. Vai você!
– Se eu me divertir e, você não, não me culpe!
– Não vou te culpar. Pode ir!
Gustavo foi, mesmo sem a companhia do parceiro, e vasculhando a mata, viu uma casa muito grande e resolveu entrar. Conforme foi entrando, viu uma porta aberta, se dirigiu até lá. Entrando, viu uma moça muito bela deitada em uma cama e em sua cabeceira um quadro limpo. Ele resolveu verificar a respiração dela para ver se a menina estava com vida. Estava viva. Mas, ele pensou ter ouvido ela sussurrar algo, aproximou o ouvido para ouvir o que era. Nesse momento, ele desequilibrou-se e ao cair acabou beijando a menina.
– Obrigada por me acordar. Eu me chamo Bela, e o senhorzinho?
– Senhorzinho? Não precisa disso, eu me chamo Gustavo
– Posso saber que ano é esse?
– 2015.
– Passaram-se 100 anos.
– Você está de brincadeira? Eu entrei em uma casa encantada? E você dormiu 100 anos? E é por isso que você está vestida com essa roupa de museu?
– Não estamos brincando. A casa não é encantada, sou eu e o quadro. Sim dormi 100 anos. E minha roupa é a última moda em Paris!
– Desculpa, mas ninguém usa vestidos com camadas, faz sei lá quanto tempo.
– Certo, mas onde eu vou ficar, o que eu vou vestir, o que vou comer, o que vou fazer?
– Calma, garota enfeitiçada. Acho, que sei, quem pode ajudar.
Minutos depois…
– Não, não e não! Você não vai deixá-la aqui em casa! – protestava João. – Eu nem sei quem é ela!
– Acontece que ela não tem pra onde ir. E seus pais, praticamente, não vêm aqui. Ela precisa de roupas, e as roupas da sua irmã ainda estão aí. Vai lá, João, me dá uma ajuda, só até ela conseguir se adaptar a nova realidade?
– Está bem, mas como vamos fazer isso? Ela ainda cumprimenta todo mundo se abaixando, segurando o vestido, e só fala vós mercê? Acho que vai demorar muito até isso acontecer.
– Deixa de ser chato! Ela vai ficar se adaptar logo, espero.
Gustavo foi para a sua casa. E João esteve com Bela o resto do dia começaram a conversar, tentando se conhecer. Depois, resolveu ligar a televisão. E Bela se assustou e disse:
– Ah! O quadro preto da parede ficou colorido e começou a falar! – gritou assustada.
– Não era um quadro preto. Era uma televisão. Eu só a liguei.
– O que é televisão? No meu tempo só existia cinema.
– Podemos dizer que é um cinema em miniatura. Só que ele vem com seu próprio filme ilimitado.
Mesmo com medo do quadro falante, ela resolveu assistir aquilo.
– Estou com fome. Onde vocês guardam a lenha?
– Lenha?! Não, não usamos lenha para fazer comida mais. A tecnologia nos deu ótimos presentes: forno microondas, geladeira e comida congelada – disse João levando ela à cozinha e apresentando os aparelhos eletrodomésticos. – Vai querer lasanha de molho branco ou vermelho?
– Pode ser qualquer um – respondeu a menina maravilhada.
João colocou as lasanhas no microondas, as tirou e entregou a de molho branco para Bela e a outra se serviu. Bela ficou um minuto desconfiada, e em seguida perguntou:
– O que é aquilo? – perguntou apontando para o fogão a gás.
– O fogão. Agora a gente usa gás pra cozinhar. Ele funciona, mas eu não sei cozinhar.
– Tem certeza, que aquele espaço grande em baixo não é para colocar lenha?
– Tenho. Ali é o forno. Para fazer assar carne, bolo etc.
Eles foram dar uma volta na chácara. Se João apresentasse o computador, ela ia ficar muito assustada. Foram dar milho às galinhas, aos porcos e aos outros animais que viviam ali. Chegando em casa João disse:
– Vou tomar banho.
– Você vai esquentar água no fogão?
– Não. Você nunca ouviu falar de chuveiro?
– Você toma banho gelado?
– Não de novo. Você nunca ouviu falar em chuveiro elétrico?
– O que é elétrico?
– Movido a eletricidade. Com o tempo, descobrimos uma forma de produzir e transmitir energia para as coisas e assim tudo ficou muito mais rápido e mais eficiente. Por exemplo, agora o chuveiro esquenta a própria água. E eu vou lá tomar banho.
Assim, que João subiu para tomar banho, Matilde se mexeu no quadro pedindo para a menina olhar atrás. Bela mais que depressa pegou o quadro e atrás havia um manual sobre todas as invenções domesticas dos últimos 100 anos.
– Obrigada, atrapalhada.
Se Matilde não tivesse dado o manual, com certeza Bela ia perguntar quando iam acender as lamparinas.
No outro dia, Gustavo apareceu e Bela já estava bem adaptada, mesmo que se assustasse toda a vez que a alguém ligasse a televisão. João surpreendido perguntou:
– Como conseguiu se adaptar rápido assim?
– Eu tenho um segredo. Querem saber?
Os meninos apenas olharam com ar de curiosos. E Bela continuou:
– Este quadro era uma feiticeira que me amaldiçoou e foi condenada a virar um quadro, mas ela precisa que eu quebre a maldição dela então ela me dá sempre uma ajudinha.
– E qual é a maldição dela?
– Quando eu encontrar alguém que me ame ela volta a ser gente.
– Acho que vai demorar muito – disse João.
– Ou não. – disse Gustavo.
Pensaram um pouco e perceberam que Bela precisaria ir à escola. Então eles tinham um problema: como matricular alguém de 115 anos em uma escola? Apresentaram o problema à menina. A menina olhou para o quadro, Matilde piscou de volta.
No outro dia, a menina estava na escola sendo apresentada como aluna nova. Os garotos não puderam se conter, e perguntaram como tinha conseguido entrar na escola tão rápido. A menina respondeu:
– Ora! O quadro deu uma ajudinha. Com certidões de nascimento, histórico escolar e outros documentos atualizados. E um tal de Trajano se apresentou como meu pai, dando um papel de encaminhamento à escola, ou seja, estou matriculada e tenho agora 15 anos e não mais 115.
– Entendido – disseram os meninos.
Na hora do intervalo, Renato, um menino de outra sala começou a puxar conversa elogiando a garota nova. João ao ver aquilo ficou muito irritado, aproximou-se e já foi logo dizendo:
– Sai daqui, Renato. Ela não para o seu bico!
– Calma aí, não sabia que chatos também namoram – disse tentando deixar ele mais irritado.
– Se eu estou ou não namorando isso não te diz respeito!
– Então, você confessa que é chato?
– Ele não é chato, ele só é um pouco nervoso.
Os dois olharam um para o outro. A troca de olhares entre eles fez Renato reagir saindo dali rapidinho. Desculpa, não vou dizer o que ocorreu no intervalo, nem depois da aula, mas vou dizer que quando Bela e João chegaram a chácara, Matilde estava aguardando eles.
–Tenho um segredo para vocês: Renato ficou o tempo todo conversando com o Gustavo na hora do intervalo. Trajano tem muitos poderes, inclusive de mudar a aparência.
Michel Patrício é estudante de História na Unespar/Campo Mourão
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