“Palavras são como comida, precisam ser digeridas”, por Célio Roberto Silva, na coluna “Por escrito”

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Pascal dizia que tudo o que o homem faz, o faz em busca da felicidade. Ele usava a palavra Ennui para designar o estado no qual o espirito humano é invadido pelo tédio e pela angústia, e Divertissement para descrever o movimento de fuga desta angústia em busca da felicidade. Um homem que tira a própria vida, assim o faz porque busca fugir da dor e encontrar a felicidade, diria Pascal.

Num esforço de tentar compreender as razões da angústia neste mundo líquido que vivemos, me deparei com a deliciosa reflexão de Rubem Alves: “Ninguém mais escuta ninguém”… “Há tanta procura por cursos de oratória, mas ninguém procurando por cursos de escutatória”`. Esta bela provocação me impulsionou a tirar a prova real do enunciado, e passei a observar minhas conversas e as conversas de anônimos, e claramente Rubem Alves tem razão, de um modo geral temos muita dificuldade em ouvir. Talvez, alguns digam: mas eu ouço as pessoas, contudo, penso que ouvir implica em esvaziar a mente e recepcionar cada palavra dita, meditando no significado de cada uma, ao mesmo tempo que se tenta ouvir a escondida melodia inscrita nos interstícios da fala. Ouvir bem implica em atribuir importância ao outro, ao passo que é também um exercício de autoconhecimento e autocontrole.

Assim, creio que, muito da angústia que sentimos hoje é resultado de nossa inanição espiritual (não de cunho religioso), que só pode ser suprida pelo encontro despretensioso que leva a uma verdadeira e agradável conversa, como diria aquela canção de Vander Lee:  “sabe o que eu queria agora meu bem? Sair chegar lá fora encontrar alguém, que não me dissesse nada, não me perguntasse nada também… que me oferecesse um colo um ombro, onde eu desaguasse todo desengano, mas a vida anda louca, as pessoas andam tristes, meus amigos são amigos de ninguém”. Acho que nos falta também a capacidade de conversar em silêncio, como em que certa feita perguntaram pra Madre Teresa por quê ela passava tanto tempo orando. Ela respondeu: “eu falo com Deus” e perguntaram novamente: “mas o que você diz pra Ele?”… “nada, só escuto”… resposta estranha, inquiriram mais uma vez: “você só escuta? Mas o que ele diz?”…  “nada, Ele só me escuta”…

Decidi tentar seguir o conselho de Rubem Alves… Palavras são como comida, precisam ser digeridas…

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