“Pague para que eu fique no poder”, por Carlos Eduardo Kadu, na coluna “Por escrito”

Passa ou não passa no Congresso Nacional, a proposta da reforma política, para que cerca de R$ 3,6 bilhões decolem do bolso contribuinte e aterrissem às campanhas eleitorais? A pergunta, que se faz, de cima abaixo do mapa brasileiro, é questão que insinua o que se sabe: é sempre o povo quem paga a conta. Na ocorrência de tantos escândalos, somos levados agora a custear a manutenção do poder de outra forma. Numa suposta tentativa de evitar “caixas dois” e desvios milionários, costura-se o pagamento das campanhas com 0,5 % do Produto Interno Bruto (PIB).
Desde o levante popular de junho de 2013, os políticos entraram no foco das instituições. Não que antes – bem antes – não houvesse mau uso das cifras públicas. É que uma parte da opinião pública, nem tão grande quanto parece, passou a se interessar pela condução da nau brasileira. Pena que tantas fortunas consolidadas fiquem de fora desse novo olhar jurídico, que tem tornado até enfadonho assistir aos telejornais. Antes de apertarmos o play no horário nobre, estamos convictos do bombardeio de denúncias e delações já cotidianos das telas de TV.
Ocorre que como resposta à corrupção dos próprios atores dessa novela, somos levados a ver com bons olhos um jeito “novo” de fazer política: com o dinheiro do povo. Na cara de todo mundo! E o pior é que muitos de “nós” estão radiantes com uma matemática que só muda os nomes dos “divisores”, “dividendos” e “quocientes” de uma conta que em nenhum momento deixou de nos ser endereçada.
Ora, haveria momento mais adequado que o atual, do ponto de vista tecnológico, para se promover campanhas modestas? Penso que ajudariam a consciência política (que não temos) e os meios sociais da internet. Aos não acolhidos pelo mundo virtual, temos a TV e o rádio, tão eficazes como sempre. Talvez bastasse. Não sem significar a igualdade de condições entre os concorrentes e um rodízio natural das cadeiras. Algo muito distante do interesse dos poderosos. Esses querem mesmo que o cristão brasileiro continue a “dar a César o que é de César”, missão cada vez mais penosa a cada um de nós.
Carlos Eduardo Kadu é redator do Tasabendo.com e autor do livro “Quase Normal”.
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