“No lixo”, por Osvaldo Broza, na coluna “Por escrito”
No livro “Campo Mourão em Crônica”, editado em 2007, conto algumas histórias (Memórias de um vendedor de livros) sobre as vendas (ou tentativas de venda) do meu primeiro livro, Caminhos de Casa, editado em 2004. Situações pitorescas, desagradáveis, cômicas…Histórias de pessoas que, por um motivo ou outro, não quiseram comprar meu livro.
Tem, por exemplo, aquele empresário, companheiro de Rotary, que não comprou porque o emprestaria de seu funcionário que acabara de comprar um exemplar. Diante do que falou o funcionário, de que o livro era seu e o levaria pra casa, o patrão disse: – E daí, por acaso vai comer o livro que não possa emprestá-lo depois?
Nada de diferente aconteceu com o Campo Mourão em Crônica. Destaque para aquele funcionário alto padrão de uma grande empresa, amigo santista de longa data, que não compraria porque já o teria lido – ou estaria lendo – na casa de uma cunhada; aquele cidadão rico que estava tendo muitas despesas com o batizado de um sobrinho. E assim por diante. Têm outros casos (juntando os dois livros), mais de vinte, com certeza, que hoje só me fazem rir.
O que não me faz rir, pelo contrário, me faz chorar… de raiva, não foi com a venda, mas sim com o desaparecimento (?) precoce do Campo Mourão em Crônica.
Quando o lancei, em setembro 2007, deixei guardada (?) na gráfica que o editou uma caixa com 130 exemplares. Seria, digamos, uma reserva técnica, para venda futura, exposições, doações, etc. Essa mesma quantia, ou perto disso, também deixei guardada, só que em minha casa, dos livros anteriores, Amigos da Poesia (coletânea) e Caminhos de Casa.
E o tempo passou. Mais de sete anos. Mas eu nunca deixei de passar na gráfica, pelo menos a cada cinco ou seis meses, até porque, todos (?) lá são meus amigos. Eles sempre me perguntavam quando é que nasceria meu outro filho (era assim que eles chamavam – e tratavam – meus livros). Aliás, só tenho que enaltecer o cuidado e o carinho que eles sempre tiveram para com meus filhos (?). Eu respondia que era só uma questão de tempo, de mais algumas crônicas, enfim, detalhes.
Até que, em meados de 2015, às vésperas da Bienal do Livro em Campo Mourão, voltei à gráfica. Desta vez, enfim, para fazer o orçamento de uma nova edição e também buscar os livros que lá deixei guardados, uma vez que os que eu tinha em casa haviam se esgotado. Inclusive, para expor na Bienal.
– Sei não, Broza, mas acho que não têm mais livros seus aqui. Deixe eu chamar o fulano que ele vai te explicar… disse-me o dono da empresa e meu amigo pessoal.
O fulano chegou e confirmou. Meus livros, pasmem, haviam sido jogados fora. Isso mesmo, jogados fora, como lixo.
Ele justificou que tempos atrás foi feita uma faxina no depósito da empresa e muita coisa foi jogada fora, não só os meus, mas muitos outros livros cujos donos nunca mais apareceram pra buscar.
Chateado, porém calmo (eu estava tomando um tipo de calmante naqueles dias, depois disso passei a tomar antidepressivos), falei: Pô, cara, você me conhece, sabe os meus telefones, o meu endereço, os “butecos” que frequento….
– Não pude evitar, Broza, era pra jogar tudo, não vi e não lembrei que o teu livro ainda estava lá.
E o dono da empresa: – Não fui eu quem ordenou a faxina, eu estava de férias.
“Sinto muito!” foi o que ouvi por último. Acho que dos dois ao mesmo tempo.
Não os culpo, totalmente, afinal, quem mandou eu pensar que gráfica, além de incubadora é também cuidadora? E que fosse obrigada a cuidar do meu “piá” (saudade do Tio Miguel) por mais de sete anos?
Mas, o “sinto muito” foi muito pouco para uma perda (pra mim, o pai) tão grande.
“E sem nenhum sentimento,
Com certeza, para quem decretou a limpeza (?)
E o seu desaparecimento”.
Chique esse finalzinho, hein?!
Dias depois, contando a história para um amigo, ele me confortou (?):
– Não fique tão triste, com certeza os seus livros foram para o lixo reciclável e, enfim, serão úteis!
Putz!…
Osvaldo Broza é corretor de imóveis, escritor e membro da Academia Mourãoense de Letras
Participe da coluna “Por escrito”! Mande seu texto (artigo, poesia, prosa, crônica, etc), com foto e breve biografia para [email protected]
