“E a Maria?”, por Fátima Saraiva, na coluna “Por escrito”

A Maria morreu…
Morreu de depressão.
Na verdade, todos os dias, Maria morria,
Mas ninguém percebia.
Maria vivia tão preocupada
Com os afazeres domésticos.
Maria falava pouco.
Tinha problemas de dicção.
Assinava só o nome,
Mas ela sabia escrever.
Algumas vezes, tentou escrever,
Escrever para não morrer.
Mas toda vez que seus dedos
De pele ressecada,
A caneta segurava,
Maria não conseguia ignorar
Sua memória… “Burra”! “Burra”!
Raramente, Maria gargalhava.
Ela até tentava, mas lembrava do marido
Criticando seu sorriso.
Se Maria pudesse escolher,
Teria escolhido viver,
Não por amor à vida,
Mas porque precisava preparar a comida,

Lavar roupas,

Limpar a casa.
A tristeza de Maria
Resultou em falências múltiplas.
O Laudo Médico: Enfarto do Miocárdio.
Perfeito, o Laudo.
O marido não terá que dizer
Que Maria era ‘deprê’.
Maria morreu…
Sem ter ido ao cinema,
Sem segurar a mão do marido em público,
Sem ir à sorveteria da esquina,
Sem repetir o pedaço de bolo,

Sem ter feito um corte bacana no cabelo,
Sem ter de fato uma companhia.
Ah se Maria tivesse matado
Dentro de si,
A Maria deprimida,
A Maria solitária.

Teria sim, a Maria
Feito uma reviravolta.
Mas morrer de verdade
Não foi nada bom,
Não foi bom para Maria.
Quanto ao marido,
Logo ele encontrará
Outra Maria.

Maria de Fátima Saraiva Ferreira – 22/06/17

Maria de Fátima Saraiva Ferreira. Nascida em Umuarama – PR, reside em Campo Mourão desde 1993. Concluiu Licenciatura em Geografia no ano de 2008 pela UNESPAR /FECILCAM – Campo Mourão – PR. É membro da Associação Mourãoense de Escritores (AME).

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