“Depravação”, por Matheus Trindade, na coluna “Por escrito”

Eu costumava percorrer o mesmo caminho todos os dias e costumava ser o mais imperceptível possível. Eu nunca soube ao certo o porquê, eu apenas seguia regras. Regras criadas socialmente, aquelas pelas quais somos inseridos e não temos o direito de questionamento. Talvez tenha sido obra de um ser superior ou apenas criação da natureza. O problema nunca fora a criação, mas sim a impugnação incoerente dos nossos semelhantes.

Eu sentia que eu era diferente. Eu sentia isso diariamente. Sentia na alma e no corpo. Sentia nas agressões em casa, no colégio e em todos os lugares que frequentava. Eu sentia na rejeição dos meus pais. Eu sangrava, sangrava por ser quem eu sou. Por conseguinte eu aprendi a me afastar, a me calar e a ser introvertido. Eu me esforçava para não aparecer, não ser notado e torcia para não ser acometido.

Eu não escolhi ser diferente. Eu queria gritar, gritar ao mundo o que estava preso em minha garganta, e fora aí que tudo começou.

Eu cheguei à minha casa, entrei em meu quarto e arremessei minha bolsa sobre minha cama. Lavei meu rosto, e perdurei em meu próprio reflexo no espelho. Eu já não estava mais com medo, eu estava furioso. Estava cansado de ser condenado, cansado de padecer aos julgamentos alheios. Respirei fundo, apoiei minhas mãos sobre a pia e vomitei. Eu não sabia se estava doente, não sabia se aquele sangue era adoecido fisicamente, não sabia se não iria passar mais. Em meio a todo aquele sangue, eu sentia minha própria vida ser dissipada. A causa pouco me importava, porque finalmente eu conseguira-me sentir vivo.

Antes de tudo acontecer, lembro-me de ter sido violado. Eu me lembro de sentir desprezo de mim mesmo. Lembro-me de sentir o desespero romper minhas veias e o meu corpo. Romper meu espírito e quebrar o meu psicológico. Sentia-me sujo, desprezível e repulsivo. Não conseguia tirar a cena da minha cabeça, não conseguia aceitar que meu pai tivera feito aquilo. Não conseguia mais sentir a mesmo.

Perdera sangue suficiente para transbordar sobre a pia velha e entupida. Perdera sangue suficiente para minhas pernas falharem e eu cair de joelhos, frente a frente à minha purificação. Eu queria expelir toda a podridão que eu sentia dentro de mim, eu queria saber como é viver sem ter sido condenado antes mesmo de nascer. Eu queria saber como é viver, e não apenas sobreviver. Talvez eu tivesse conseguido. Talvez eu pudesse ter sido feliz. Talvez eu pudesse ter conseguido amar a mim mesmo. Contudo, tudo já estava arruinado.

Meu último pensamento fora: espero agora poder viver.

Matheus Guilherme Trindade, tem 16 anos, estuda no Colégio Estadual de Campo Mourão. “Fiz essa crônica para retratar a realidade de uma grande parcela da população. Espero que gostem!”.

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