“Da sonata ao samba: O amor não escolhe gênero”, por Jhonatan Wilson, na coluna “Por escrito”

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Se o amor é uma canção cantada a dois, todas as formas de amar devem ser consideradas. Mesmo que não seja uma canção perfeita e pragmática sempre há harmonia, letra e melodia, independentemente daqueles que a compuseram, e o ritmo é regulado pelo movimento do tempo, carinho e amor… Sem pressa de findar!

Como um compositor que assina a sua criação, todo amante deve assumir o seu amor, porque não há prova maior de sentimento e demonstração do que amar, aceitar e assumir.

Os integrantes da dupla podem ser pela eternidade as pessoas certas uma para a outra, parceiros na música produzida no pulsar dos seus corações. Logo, não devem se importar com o que as demais pessoas pensam e sim se amarem em todos os casos e descasos, em tudo o que for dito e também no que não for.

Em todos os casais existe alguma dependência. No homem que precisa de outro homem, o sentido da vida pode estar na velocidade e na força dos braços que o move e levanta. As mãos pesadas podem proporcionar sensações que o torne mais homem que qualquer outro! Já na mulher que a dependência está em outra mulher, o sentido vital pode vir da sensibilidade e da beleza que tanto inspiram; características estas que em uma fração de milésimos de segundos transformam sentimentos, em que um simples toque ou olhar podem mudar o seu estado de humor por um dia todo.

Assim, o peso do rock se transforma em uma batida tão suave e tão poética: “mpbtizada”. Aquele ritmo totalmente eletrônico pode se transformar em bossa nova, sem perder a euforia e elegância. Ao invés dos corpos se movimentarem separadamente na pista, eles podem unidos mostrar uma bela dança em qualquer palco. Apenas é preciso o espaço e a permissão de sentir: Compasso, passo, pra lá e pra cá… Quem sabe ambos começam a sambar, pois o batuque e o remelexo podem uma hora se casar!

Quem foi que disse que o mulato não pode se juntar a uma loura? Quem ousou dizer que uma indiana não deve estar com um japonês ou que esse japonês não pode se casar com uma alemã? As coisas sem cor são tão sem graça, sem mistura e acabam sendo sonsas. Certas junções, além das rítmicas, podem dar bons resultados: o ácido e o açúcar quando unidos formam o agridoce que provocam um bom sabor e degustação, e tal é a união de duas coisas opostas.

“As pessoas novas não devem se relacionar com as mais velhas!” – ouvimos isto incontáveis vezes. – Tudo bem! Mas, por que devemos respeitar as pessoas mais velhas? É por conta das suas sabedorias e experiências, não é? E se alguém quiser se tornar sábio mais cedo? E se, ironicamente, esse alguém desejar procurar conselhos a todo tempo, ao levantar e ao deitar todos os dias? Não é mais fácil estar com quem pode lhe proporcionar isso facilmente? O experiente, o sábio… O mais velho!

O pobre e o rico podem sim serem felizes e se adaptarem a (con)viver como um só, mesmo sendo de mundos diferentes; do contrário, a história de “A Princesa e o Plebeu” seria inútil. Nada é tão improvável ao ponto ser impossível.

O amor não escolhe sexo, cor, etnia, idade e nível social, porém ele deve escolher dia, hora e momento propício para acontecer. Portanto, a todo tempo precisamos estar sensibilizados se quisermos receber esse presente dos céus. Se nós somos providos desse dom de amar, por que desmerecer, prejulgar ou não aceitar algumas das formas de sua idealização? Há tanto desafeto e ódio no mundo que qualquer tipo de amor se torna antagônico a isso, já parou para pensar?

O preconceito é doentio… Enquanto o branco não lavar os pés do negro não haverá paz. Enquanto certos amores continuarem sendo vistos apenas de forma estereotipada, não sendo aceitos como algo lato do coração, o ser humano vai continuar rumo à destruição, porque amar é construir! O brilho do olhar de todo casal pode fascinar e qualquer ocupação do mesmo espaço e do mesmo abraço pode inspirar. Podemos escolher nosso par; somos livres para escolher qual gênero tocar e ninguém, exatamente ninguém, pode impedir alguém de cantar e amar!

– WILSON, Jhonatan. Sem capas, com aspas, Agbook, 2014.

Jhonatan Wilson – Professor de língua portuguesa, integrante da Academia de Letras da Mantiqueira, representante municipal da Federação das Academias de Letras e Artes do Estado de São Paulo – FALASP para o município de Estiva Gerbi/SP. Facebook. E-mail: [email protected]

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