“Bons tempos de outrora”, por Arléto Rocha, na coluna “Por escrito”
Predestina-me este talento de ouvir estranhos. Outro dia, sentado ao balcão de um boteco da rodoviária de Curitiba esperando o ônibus as 13 sendo ainda 10 o sujeito me disse:
-Bebendo cerveja nesse frio!
Olhei o cara sorriu, o outro junto em silêncio. Ventríloquo falava por ele e por todos desandou a dizer que a mulher do amigo, esse aí em silêncio tinha o largado e agora voltava para uma reconciliação lá em Faxinal depois de Ortigueira antes de Apucarana. Da primeira até a segunda cerveja a historia do amigo na terceira a dele até pedir minha opinião:
-Será que ela o aceita de volta?
O ônibus era as 11. Foi. Feliz por eu mentir que sim. Pagou-me as três cervejas mesmo dizendo que a prefeitura de minha cidade arcaria com as Kaisers bebidas. Pela porta bolsa nas costas o falante para o amigo feliz e sempre quieto:
-Num disse que ela vai voltar pra você!.
Na cidade da Lapa em um evento de premiação literária tarde da noite no vento sulista descobri que não existia hotel aberto àquela hora. Bagagem dormindo no guarda volume da rodoviária fechada e eu lá fora com dez exemplares da antologia publicada. Deitei-me no banco de madeira dos taxistas:
-Vende livro?
Para evitar dizer que escrevia (um crime nesses dias de espíritos embrutecidos) disse que sim:
-Sim.
Encolhi os pés ainda com a cabeça nos livros feitos travesseiros. Depois me levantei de vez. Outro taxista sentou-se ao lado. A vida inteira dos dois uma tia-avó em Nova Cantu, escalação completa do Coritiba e do Atlético.
-Torce pro Coxa ou pro Atlético?
-Grêmio de Maringá.
-Esses livros que vende é de quê?
-Poesia.
-Leia uma.
Escolhi a minha e li sem dizer que era minha. Fizeram cara de desaprovação e de quem não entendeu porra nenhuma. Voltaram a Tia-avó em Nova Cantu e ao futebol curitibano. Café, pão e os livros.
Conversas estranhas com conhecidos também não é novidade, talvez por essa vocação de ouvidos mais que boca:
-Faço tudo e nada está bem num dá mais pra continuar assim o jeito é terminar… Nunca, nunca mais quero vê-la. Dois dias depois, juntos.
Mas essa coisa além do entendimento pode ser fruto dos dias. Culpa nossa pois pela tecnologia conversamos com gente que nunca conhecemos, outrora pelos orkuts e MSNs da vida Facebook, whatsapp de hoje no aparelho-extensão da mão humana.
Nessas bobeiras que a gente tem de ficar fazendo nada a frente de uma Internet que supostamente nos propicia fazer tudo (que embuste), ao Google na procura do não sei o que: tecla-se, para bisbilhotar todos e ninguém. Tempos birutas. Os estranhos pelas conversas vis-à-vis se tornam nossos amigos mais íntimos e o mais íntimos, pessoas que talvez nunca de fato conheceremos.
Graduado em Geografia e História UNESPAR/FECILCAM, Arléto Rocha é mestrando em História, pela Universidade Estadual de Maringá-UEM Membro da Academia Mourãoense de Letras-AML e Centro de Letras do Paraná. Tem algumas prosas e versos publicadas por aí. De Peabiru, local onde reside desde que nasceu.
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