Lei Maria da Penha completa 11 anos

Nesta segunda-feira, 7 de agosto, a Lei Maria da Penha completa 11 anos de vigência. Apesar das punições mais rigorosas instituídas pela lei, os dados sobre a violência contra a mulher seguem preocupantes: só em 2015, conforme informações do Ministério da Saúde, 162.575 mulheres foram atendidas na rede pública de saúde por situações de violência. Desse total, 63% foi de agressões em casa e, em 48,2% dos casos, os agressores são o marido/ex ou namorado/ex. Detalhe: essas foram as mulheres que buscaram atendimento médico, ou seja, o número de vítimas possivelmente é maior.

“Resolver a questão da subnotificação é um dos nossos grandes desafios”, afirma a promotora de Justiça Mariana Seifert Bazzo, que coordena o Núcleo de Promoção da Igualdade de Gênero, órgão do Ministério Público do Paraná, vinculado ao Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça de Proteção aos Direitos Humanos. Ela conta que desde 2014 o MPPR faz o registro dos inquéritos policiais recebidos na Instituição que têm mulheres como vítimas de violência. Os dados já consolidados pelo Nupige tratam dos crimes computados no período de 15 de junho de 2014 a 31 de dezembro de 2015 e apontam para 12.329 casos – seriam 62 mulheres agredidas por dia no Paraná. “Se chegarmos ao registro exato poderemos atuar de forma mais efetiva na proteção, agindo no início do ciclo da violência. Por exemplo: uma agressão que poderia evoluir para um feminicídio. Se o registro dessa primeira agressão é feito, a situação já pode começar a ser reprimida ali e a vítima protegida, inclusive encaminhada a toda rede de proteção à mulher em situação de violência”, diz a promotora.

O coordenador do Centro de Apoio, procurador de Justiça Olympio de Sá Sotto Maior Neto, destaca que, além da ação na esfera criminal, o diagnóstico preciso do problema permite uma leitura abrangente. “Os dados são uma ferramenta importante para ações de intervenção positiva. Avaliando os registros, podemos verificar quais as causas mais comuns de violência, as localidades em que há mais registros, entre outras especificidades. Com isso, é possível cobrar dos gestores públicos a implementação de políticas públicas voltadas a prevenir e coibir a violência”, afirma o procurador. “Entendemos que a equiparação de gêneros e o enfrentamento à violência doméstica familiar contra a mulher são premissas fundamentais para atingirmos o objetivo constitucional de construção uma sociedade livre, justa e solidária”, diz Olympio.

Atuação institucional – Em termos de Ministério Público, o MPPR conta com um dos melhores controles estatísticos da questão: na semana passada, a convite do Conselho Nacional do Ministério Público, o Nupige apresentou o sistema para outros MPs em evento promovido pelo CNMP para aperfeiçoar o Cadastro Nacional de Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher (CNVD). Destaca-se, ainda, que o MPPR atendeu a todas as recomendações feitas no relatório final da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do Senado que investigou a questão da violência doméstica no país. Nos últimos 10 anos, o MPPR também criou nove Promotorias de Justiça especializadas para atuar especificamente no combate à violência doméstica e familiar contra a mulher.

Como denunciar?
A violência contra a mulher deve ser denunciada na Central de Atendimentos à Mulher, por meio do Ligue 180, e no Disque 190, da Polícia Militar. As vítimas podem procurar as Delegacias da Mulher mas, caso não exista uma unidade especializada no município, qualquer delegacia de polícia pode registrar a ocorrência. Há também os Centros de Referência e Atendimento às Mulheres em Situação de Violência, que prestam acompanhamento psicossocial e orientação jurídica. Em Curitiba, a Casa da Mulher Brasileira oferece serviços integrados relacionados à Delegacia da Mulher, psicologia, assistência social, Defensoria Pública, Juizado da Violência Doméstica e Familiar e ao Ministério Público. A Guarda Municipal mantém ainda a unidade da Patrulha Maria da Penha.

A violência contra a mulher em números*

– Em 2015, as mulheres adultas, com idade entre 20 a 59 anos, foram as que mais tiveram notificação de violência, com 98.200 situações, do total de 162.575 (60,4%).

– Violência de repetição (mulher agredida mais de uma vez): 35,2% dos casos.

– As naturezas mais comuns da violência: física (48,1%), psicológica/moral (23,6%) e sexual, na forma de estupro (8,3%).

– O meio mais usado na agressão foi a força corporal/espancamento (49,7%).

– O local onde mais ocorreu a violência foi a residência das vítimas (63%), seguido de via pública (12,7%).

– Entre as mulheres adolescentes e adultas, o principal autor da agressão foi o cônjuge/ex-cônjuge/namorado(a)/ex-namorado(a) (22,7% e 48,2% dos registros, respectivamente).

– O perfil de mortalidade revela que, das 567.456 mulheres vítimas de violência entre 2011 e 2015, 5.733 vieram a óbito por causas violentas.

– Do total de óbitos das mulheres, 19,9 % tinham história prévia de violência de repetição, com destaque para adultas (21,8%) e idosas (21,2%).

– O local em que mais ocorreu a violência que levou ao óbito foi a residência (63,4%), seguido de vias públicas (15,8%).

– As principais causas de morte foram espancamento (23,6% dos casos), arma de fogo (17,2%), objeto perfurocortante (16,1%) e enforcamento (15,4%).

– O levantamento mostra que, entre 2011 a 2015, a taxa média de feminicídio foi de 4,5 óbitos por 100 mil mulheres da população geral. Nas vítimas de violência notificada anteriormente, ou seja, que já haviam buscado atendimento em unidades de saúde por violência, a taxa de feminicídio é muito maior: 91,6 mortes por 100 mil mulheres.

– O MS conclui que “Os resultados deste estudo apontam que o risco de morrer por causas violentas nas mulheres que sofreram e que foram notificadas por violência foi maior do que na população feminina geral. As mortes podem ter relação direta ou não com a violência notificada, porém os resultados mostram que as mulheres que sofreram violência e foram notificadas vivem em condições de vulnerabilidade.”

* Dados do livro “Saúde Brasil 2015/2016”, que tem previsão de lançamento pelo Ministério da Saúde neste ano.