Vendedores de livros e doadores de amor
O que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram. Mateus 25:40
Há muitos anos, liderei uma equipe de colportores estudantes numa cidade do interior de São Paulo. Era um tempo difícil, mas também divertido. Coisas incríveis aconteciam quase todos os dias.
Certa tarde, apareceu na igreja onde estávamos hospedados um rapaz que não tivera a oportunidade de lavar as roupas nos últimos 36 meses, para descrevê-lo com a melhor diplomacia. Demos uns trocados para ele, na esperança de que saísse logo, pois não tínhamos máscaras para aguentar o “perfume”. Todavia, ele não se impressionou com o dinheiro.
Então, três ou quatro colegas se olharam e tiveram uma ideia brilhante. Levaram o rapaz para o chuveiro e o submeteram a um banho de sabonete e bucha, rasparam-lhe a barba, deram-lhe roupas novas e lhe puseram sapatos nos pés. Depois, serviram-lhe comida (nesse dia, excepcionalmente, não era aveia com banana) e, como não podia deixar de ser, entregaram-lhe literatura da Casa Publicadora Brasileira. Se ele tivesse uma pastinha na mão, alguém diria que era um colportor! Dessa vez, o rapaz não conseguiu impedir que as lágrimas corressem por sua face. Suponho que, pela primeira vez em muito tempo, ele experimentava aquilo que chamamos de amor. O que o dinheiro não tinha conseguido fazer, o amor fizera. Ele não se emocionou com as moedas, mas com o banho, a roupa, a comida, a literatura, o aperto de mão.
Naquela tarde, meus colegas obedeceram a um dos maiores mandamentos divinos. Eles não apenas falaram do amor, mas o praticaram. Naquelas férias, por meio da literatura, discursamos sobre o amor para a cidade inteira, o que era muito importante; mas, por meio da ajuda prática, amamos uma pessoa desprezada, o que era fundamental. Afinal, o amor tem que ser prático, e não apenas retórico.
Esse episódio me fez pensar em Mateus 25, em que Jesus diz que o critério de aprovação ou reprovação pelo Rei, quando se assentar no trono na glória celestial, será o amor real ou a falta dele. Os que alimentaram os famintos, ofereceram água ao sedento, acolheram o estrangeiro, vestiram o nu, cuidaram do enfermo e visitaram o preso fizeram isso para o próprio Jesus. Eles se identificaram com o amor, que é a essência de Jesus, e, por isso, podem morar com ele. Os que viram os necessitados e os desprezaram serão jogados no fogo, pois não reconheceram na face deles a face de Jesus.
Meus colegas não eram apenas vendedores de livros, mas doadores de amor. Naquela tarde, em certo sentido, ainda que sem saber, deram de vestir e de comer para o próprio Jesus. Pois o amor transcende a esfera terrena.
Por Marcos De Benedicto
Pastor e jornalista, com doutorado em Ministério na Universidade Andrews (EUA). Em 1987, foi chamado para atuar como editor na Casa Publicadora Brasileira, onde exerceu diversas funções. Atualmente é redator-chefe. Autor de vários livros e inúmeros artigos.
