Acordando com Raquel

hipocrisia_

Então Jacó trabalhou sete anos por Raquel, mas lhe pareceram poucos dias, pelo tanto que a amava. Gênesis 29:20

Desde que viu e beijou Raquel junto ao poço, Jacó se apaixonou perdidamente pela jovem pastora. Primeiro amor, amor à primeira vista. O fato de sua prima ser bela o encantou ainda mais. Um mês depois, quando o tio perguntou quanto ele queria de salário, Jacó propôs trabalhar sete anos para se casar com a filha mais nova. Labão aceitou a proposta, pois seria melhor entregar a filha a um rapaz do próprio clã do que a um aventureiro. Era uma situação em que os dois lados sairiam ganhando.

Contrato assinado, Jacó foi à luta. Sete anos tosquiando ovelhas, podando parreiras e colhendo trigo lhe pareceram sete dias. Sol no rosto, poeira na sandália, sujeira de ovelha na calça, nada disso importava para ele. O preço que estava pagando parecia pequeno demais perto do que receberia. O amor minimiza as dificuldades e maximiza a recompensa. Enfim, a espera terminou. Chegara o grande dia. Nem parecia verdade. Sem luz elétrica, Jacó dormiu com Raquel e acordou com Lia. Sua ilusão noturna não resistiu à realidade da luz do sol. O narrador capta a dramaticidade da situação com uma pequena frase: “Quando chegou a manhã, lá estava Lia” (Gn 29:25). Ducha fria na euforia. Jacó fora enganado pelo sogro. O trabalho ideal, feito por amor, recebera um pagamento injusto. Ou seria a vingança da primogênita pelo que ele fizera ao irmão primogênito?

Em seu excelente devocional de 2014, o Dr. Amin Rodor usa essa história como um símbolo das desilusões humanas. Brilhante aplicação. Porém, há outra dimensão que pode ser considerada: Jacó lutou e realizou o sonho de ter a amada nos braços. Um dia, ele acordou e tinha Raquel a seu lado. Dessa vez, era real. A felicidade havia sido adiada, mas não para sempre. Na verdade, ao fim da semana de núpcias, ele pôde beijar Raquel como esposa. Teria que suar muito mais agora para sustentar Lia, Raquel e as agregadas, além de “camelar” outros sete anos para quitar o dote de Raquel, mas estava feliz.

O romance de Jacó e Raquel mostra que podemos lutar pelo sonho da beleza amada. Apesar da decepção, o prêmio vem. Se tivermos um coração apaixonado, brilho nos olhos, conseguiremos transcender os desencantos do mundo. Labões e lambões, motivados por dinheiro, sempre vão tentar nos enganar, mas, com esforço dobrado, o amor vence. Ninguém pode negar que Jacó teve uma lua de mel inesquecível com Raquel. Se não fosse a interferência de Labão, talvez teria ficado apenas com ela.

Nesta vida, você pode trabalhar por Raquel e receber Lia, mas pode também trabalhar um pouco mais e conseguir Raquel.

Por Marcos De Benedicto 
Pastor e jornalista, com doutorado em Ministério na Universidade Andrews (EUA). Em 1987, foi chamado para atuar como editor na Casa Publicadora Brasileira, onde exerceu diversas funções. Atualmente é redator-chefe. Autor de vários livros e inúmeros artigos.