25 graus negativos
Eu vim do Pai e entrei no mundo; agora deixo o mundo e volto para o Pai. João 16:28
O início de 1999 foi gelado no estado de Michigan. Neve acumulada, neve caindo, a temperatura atingiu 25 graus negativos. Estávamos chegando ali e, para alguém acostumado ao verão tropical, dava para notar uma “pequena” diferença. Os amigos brasileiros foram incrivelmente solidários. Entre outras coisas, saíram comigo para comprar um carro. Porém, chegou o dia de nossos filhos irem para a escola, e eu ainda não havia conseguido o automóvel. A Larissa, nossa garotinha de oito anos, estava assustada. Afinal, seria seu primeiro dia de aula em um país estrangeiro. “Filha, você não pode deixar de estudar, mas eu estarei ao seu lado”, prometi.
De manhã, o característico ônibus amarelo chegou, minha esposa a colocou na condução, e eu não estava lá. Mas havia um motivo: estava transpondo a neve, rumo à escola, que ficava a uns três quilômetros de distância. Como eu não podia ir no ônibus e não queria aborrecer os amigos pedindo carro emprestado, fui a pé. Quando o ônibus chegou, dei um beijo na minha filha e a levei para a sala de aula. Fiquei ali até ela se tranquilizar.
Enfrentar 25 graus negativos para acalmar minha menina foi mais do que natural. Não fiz isso porque gostasse de andar na neve ou porque imaginasse que um dia poderia contar esta pequena história num devocional. Enfrentei a neve porque a amo.
Fico pensando na jornada que Deus fez para nos tranquilizar. Em Cristo, ele cruzou o espaço gelado e hostil a fim de estar conosco. O texto de hoje diz que o Filho veio do Pai e entrou no mundo, a grande escola da vida. Isso pode dar a impressão de que o Pai ficou no Céu apenas observando nossos temores. A realidade é outra: Deus estava em Cristo, que veio estar conosco.
O próprio Jesus enfrentou seu dia de ir para a “escola”, a cruz, e sentiu-se solitário. No mesmo contexto, depois de dizer que os discípulos o deixariam sozinho, Jesus completa: “Eu não estou sozinho, pois meu Pai está comigo” (v. 32). Deus não nos deixa sozinhos nem quando todos nos abandonam.
Ao tomarmos o ônibus rumo ao desconhecido, Deus nos tranquiliza. Ele não nos libera da escola, pois sabe que precisamos estudar e aprender, mas promete estar ao nosso lado. Jesus acrescenta: “Eu lhes disse essas coisas para que em mim vocês tenham paz” (v. 33). Só a presença de Deus conosco pode pacificar nosso coração.
Hoje, se você precisar tomar um ônibus amarelo, vermelho ou sem cor para a “escola”, não tenha medo. O Pai estará lá esperando para dar-lhe um beijo, ainda que ele tenha que enfrentar 25 graus negativos ou cruzar toda a neve do universo.
Por Marcos De Benedicto
Pastor e jornalista, com doutorado em Ministério na Universidade Andrews (EUA). Em 1987, foi chamado para atuar como editor na Casa Publicadora Brasileira, onde exerceu diversas funções. Atualmente é redator-chefe. Autor de vários livros e inúmeros artigos.
