Uma vida e uma missão

A entrevistada desta edição é uma mulher dedicada à causa espiritual. Mas não é espírita, nem se considera espiritualista. Aos 30 e poucos anos, sua mãe, que era benzedeira quis passar a missão para uma das filhas e ela foi a única que se interessou. De lá para cá muitos foram os casos de verdadeiros milagres executados a partir da fé pelos benzimentos que vêm quase sempre acompanhados de visões sobre os problemas da pessoa benzida.

Jenoefa Aparecida Catenáccio, 75, nasceu em 26 de agosto de 1939 numa fazenda no município de Pirangi, no Estado de São Paulo. Quarta filha de 10 irmãos, aos 12 anos já tomava conta dos afazeres da casa, visto que sua mãe era doente. Nunca trabalhou na roça, sempre foi dona de casa, até depois de casada.
Com o único ano que frequentou a escola, dona Aparecida conta que foi o suficiente para ela aprender a ler, fazer contas e escrever bem. Segundo ela, naquele tempo se aprendia mais em um ano do que se aprende hoje com todo o primário. Mas a família de dona Aparecida mudou-se daquela fazenda e mudou para outra mais longe da escola e ela então parou de estudar.

Com 16 anos dona Aparecida se casou no município de Porecatu – PR, onde morou por cinco anos. Em seguida foi para Lucélia – SP e ficou mais três anos. Depois ficou mais três anos em Mirassol – SP. Aos 23 anos dona Aparecida voltou para o Paraná, no município de Assaí, onde permaneceu durante três anos. Em seguida voltou para São Paulo na cidade de José Bonifácio, onde ficou por cerca de três anos e teve os últimos filhos.

Por último, dona Aparecida veio para Campo Mourão onde é pioneira. Ela conta que quando aqui chegou havia apenas algumas casas espalhadas no meio de muito mato. Chegou em um ano em que ela narra ter havido um fogo que pegava no chão limpo.

Segundo dona Aparecida as fagulhas pegavam nos porcos e era preciso soltar a porcada para que se livrassem do fogo. Ela conta que os moradores do município rezavam e faziam promessas para se livrarem do fogo. O relato é de que até uma casa pegou fogo. Nas outras casas a história é que os moradores molhavam para não queimar. O fato teria cessado quando um menino de 11 anos disse ter visto um santo de braços abertos pouco antes do fogo acabar.

A casa de dona Aparecida ficava na fazenda Serra Molhada a 60 quilômetros de onde hoje fica a cidade. Lá ela ficou sete anos. Em seguida, ela veio morar no endereço onde está até hoje, na Rua das Palmeiras. Ali construiu uma casa de madeira e morava com o marido e os quatro filhos.

Foi nessa casa que dona Aparecida começou a benzer. Recebeu a missão da mãe que também era benzedeira. E são muitas as histórias de benzimento que terminaram em curas das pessoas que a procuraram.

Ela recorda de um menino da favela que tinha mal de simioto e estava desenganado pelos médicos. Segundo dona Aparecida, os médicos o mandaram para casa porque não havia mais o que fazer. Foi levado então até ela e ela disse: “se ele aguentar os três benzimentos ele vai escapar”. Então ela ensinou aos pais que deviam dar um banho de carqueja no menino antes de levá-lo até ela e trazer junto um vidro de óleo de oliva para os nove benzimentos que ela iria fazer. E foi assim que o menino foi curado.

Em muitos casos dona Aparecida foi até o hospital para benzer e ela conta que muitos foram curados.

Na maioria das vezes que benze, dona Aparecida tem visões, às vezes com luzes pretas quando a pessoa está mal e com luzes azuis depois que a pessoa passa pelos benzimentos. Mas nem tudo o que vê ela conta para pessoa. Há casos em que ela diz ver a pessoa no caixão, mas não fala nada. Algum tempo depois recebe a notícia de que a pessoa morreu.

Dona Aparecida lembra que já foi convidada para trabalhar em mesa branca de espiritismo, mas nunca aceitou. Como também não cobra para benzer. “As palavras de Deus não se vendem. Deus me livre de eu cobrar um benzimento”, diz ela. Apesar disso, ela aceita ajuda voluntária das pessoas que frequentam sua casa atrás do benzimento.

Casa que aliás ela e o marido ganharam do sogro. Ali ela viveu com o marido e os filhos até que ele morreu de câncer e os filhos cresceram. Hoje dona Aparecida vive com a pensão que recebe do marido e tem uma família bem grande. Ao todo são dois filhos (que sobreviveram de seis), nove netos, quatorze bisnetos e cinco tataranetos.