Um religioso sem religião

Aos 73 anos, Raimundo Alves Bezerra, um cristão sem religião, conta um pouco de sua vida e bate um papo sobre os conceitos que construiu ao longo de uma vida de muito trabalho e fé. Apesar de cristão, Raimundo não vai a nenhuma igreja. Raimundo nasceu em 25 de março de 1939, no município de Vila Bela (hoje Serra Talhada), no Estado do Pernambuco, na Fazenda do Açudim. Começou a trabalhar já aos sete anos e estudou até a quarta série do Ensino Fundamental.

Quando tinha nove anos sua família mudou-se para o Estado do Ceará. Lá ele a família passaram fome depois de um longo período de seca. Um tempo em que a mãe de Raimundo dava bem pouca comida aos filhos e dormia sem comer. Na lida da roça cresceu sem conhecer futebol, mas ia aos bailes dançar forró.

Com 17 anos veio embora sozinho para o Paraná numa viagem de pau de arara que durou 13 dias. Em Porecatu-PR, onde desembarcou, trabalhava no corte de cana e mandava dinheiro para a família no nordeste. Ficou seis meses em Porecatu e mudou-se para a cidade de Sabáudia, onde trabalhou em roças de café por pouco mais de um ano. Nessa época um irmão seu veio do Ceará morar com ele e ambos trabalhavam por aqui.

Dali, partiram para Cruzeiro do Oeste onde tocaram um café de porcentagem. Ambos casaram e foram com suas esposas um para cada lado. Raimundo foi para Cianorte com a esposa, onde morou na área rural visto que havia pouco trabalho na cidade. Da primeira vez que morou em Cianorte ficou apenas quatro meses e mudou-se para Peabiru, onde ficou por 12 anos.

De Peabiru partiu para Brasilândia – PR, onde tocava lavoura de algodão. De lá voltou para Cianorte onde aprendeu a profissão de artesão com artigos de bambu. Da segunda vez que morou em Cianorte ficou cinco anos na cidade.

Então veio para Campo Mourão, onde – na profissão de artesão, com uma loja que montou – criou seus quatro filhos. Trabalhou como artesão por 20 anos. Nos anos seguintes até hoje está aposentado.

Tásabendo.com – No geral como o senhor levou sua vida?

Raimundo – Sempre lutando para ter uma vida exemplar. Porque eu sei que alguém vai se basear no meu viver para ter uma vida boa. Se você tem uma vida que não é muito controlada, as pessoas dizem “não quero ser igual a fulano”. Salomão disse assim: “O melhor a ser escolhido é um bom nome do que a muita riqueza”.

Então eu escolho ter um bom nome. No dia que eu faltar meus filhos vão dizer: “meu pai era um homem de bom exemplo, um homem honesto, um homem sério”… para que alguém possa se espelhar em algo bom que eu fiz.

Tásabendo.com – Foi muito sofrido para criar os filhos, comprar casa e ter um casamento de 51 anos como o senhor tem?

Raimundo – A gente não precisa de muita coisa para viver. Principalmente com o país que nós temos hoje está bom demais. Hoje está um céu em vista do que era. Os governos, principalmente esse governo Lula deu uma melhorada. A gente vê umas coisas erradas, mas melhorou muito. Eu tenho um vizinho que foi para o Nordeste e notou uma diferença muito grande na vida das pessoas. Daquela época para hoje é como a mudança do dia para a noite. Tem ainda pessoas que sofrem porque o país é muito grande, mas o governo Lula foi muito bom.

Quando o governo ajuda o pobre, as pessoas dizem que o Brasil vai empobrecer, quando ajuda o rico dizem que o Brasil vai crescer. (risos)… é assim que eles dizem, não é? E é assim, o pobre precisa de um bom governo. Porque o rico por si se serve. Ele pode viver a vida. Porque toda a riqueza do rico é o suor do pobre. Não estou falando mal do rico. Se eu pudesse ser rico eu seria também mas seria diferente…

Um profeta de Deus disse assim: “Ai daquele que adquire riqueza mal adquirida”. O rico devia olhar mais para o trabalhador. O trabalhador para comprar uma casa, só com ajuda do governo, mas com seu trabalho não dá. Para você ver, quando Deus criou o mundo ele disse assim: “o homem trabalhe seis dias e no sétimo dia descanse”. Pois o sábado santo de Deus é um dia de descanso. Jesus disse, no capítulo 2, verso 27 de Marcos, que o sábado foi criado por causa do homem. Então Deus sabia que seis dias de trabalho era o suficiente para o homem viver, comprar uma casa, ter onde morar. Mas é preciso que o governo ajude e ele fique pagando 20 ou 30 anos, às vezes depois de velho. O rico aposenta com oito a 10 salários. O pobre aposenta com um salário. E isso é assim porque o rico tinha com que contribuir. O pobre não tem. O governo precisava rever isso aí.

Porque a vida é assim: ela vai até uma altura, depois ela passa. Porque o que faz uma vida boa, sabe o que é? É o viver! O viver ruim, a vida fica ruim. O viver bem, a vida fica boa. Uma vida boa é semelhante a um céu. Porque eu sei contar o que é possuir o que comer e o que é fome. Porque fome é diferente de vontade de comer. Quando você tem fome, você pode comer o quanto for que continua tendo fome, porque o corpo sente falta de nutrientes e mesmo a comida caindo no estômago ainda há fome no corpo. Enquanto o corpo não absorver os nutrientes ainda há fome. Eu passei por isso no Nordeste.