Perfil: No fio do bigode

Joaquim Vieira da Silva, 72, nasceu em 01 de janeiro de 1941 num sítio no município de Pitanga. Vivia com mais sete irmãos e conta que começou a trabalhar com seis anos puxando milho num cargueiro e cuidando dos porcos, que eram de 700 a 800 unidades. O trabalho o impossibilitou de estudar e ele foi aprender a ler e escrever o básico já na vida adulta.
O que comiam era feijão, farinha de milho e carne de porco à vontade. Na adolescência Joaquim cuidava do plantio de 55 alqueires de roça, dos 650 alqueires de propriedade de seu pai. Joaquim contratava os funcionários e supervisionava o trabalho deles.
Com 17 anos e cansado de trabalhar sem ver dinheiro e apanhar de reio do pai, Joaquim saiu de casa. Mas o dia em que deixou a família foi uma data marcante. Joaquim conta que trazia um cesto de milho nas costas para levar ao gado quando olhou para o pai que estava na entrada da porta da casa.
Como estava com peso nas costas, o olhar de Joaquim saiu meio atravessado, pois ele olhou de cabeça baixa e olhos para o alto. Como tinha acabado de brigar com a mãe, o pai interpretou que Joaquim estava lhe olhando feio. Então o pai entrou na casa, pegou um reio e gritou para o filho: “Olha aqui zóio de boi brabo, você vai ver o que eu vou fazer para você!”. Ao que o filho respondeu: “Mas credo eu não fiz nada para o senhor, estou aqui carregando o milho para o gado…”. O que se seguiu foi uma cena violenta.
Quando o pai reafirmou que iria cortar o lombo de Joaquim com o reio, o jovem sacou de uma garrucha, gritou que tinha acabado o tempo dele apanhar do pai daquela forma e avisou: “Mudou um passo morreu caboclo, chega de bater em mim!”.
Com isso Joaquim saiu de casa, mas continuou na fazenda que tinha muitas casas. Foi arrumar serviço com o seu padrinho José. Com três anos que trabalhava por dia e tocava uma roça, Joaquim comprou 11 alqueires de terra para pagar à prestação. Então ele emprestou dinheiro de um fazendeiro forte e comprou 51 cabeças de porcos. Pagou a conta no ano seguinte. Em seguida terminou de pagar o sítio e comprou mais alguns animais para o trabalho.
Com quatro anos que comprou o sítio, Joaquim se casou. Ele recorda que casou com uma prima no dia seis de junho de 1964, quando tinha 23 anos. No dia 24 de junho de 1964 os seus porcos morreram de peste suína. Joaquim perdeu 100 porcos capados de 200 quilos cada e mais 250 animais entre porcos, leitões e leitoas. O jeito foi colher e debulhar o milho que tinha no sítio para vender. A venda rendeu 600 mil cruzeiros e quem sempre carregava esse valor era Dona Ana, a esposa de Joaquim.
Numa negociata ele entregou os 600 mil cruzeiros em troca de uma roça e 44 cabeças de porcos. Assim recomeçou a vida. Mas quando contou o dinheiro que ficava na bolsa da sua esposa, dona Ana chorou e pediu para que ele não fizesse aquilo. Ele, que andava preocupado de ela andar com todo aquele dinheiro, apaixonadamente respondeu: “Não, não. Esse dinheiro é contra você. Matam você e levam o dinheiro. O dinheiro eu ganho outro, mas e você? Sem dinheiro está bom, você ficando junto comigo o resto nós damos um jeito”.
Mas quando a porcada estava quase no ponto de vender veio a peste suína novamente e matou tudo. Joaquim teve que vender alguns animais, deixou o sítio parado – pois não tinha sementes nem dinheiro para plantar nada – e voltou a trabalhar por dia. Ficou nessa vida por um ano até ter condições novamente de plantar em sua própria terra e se endireitar financeiramente de novo.
Em 1977 Joaquim arrendou seu sítio em Pitanga e veio para Campo Mourão. Um tempo depois que estava aqui vendeu o sítio e comprou dois terrenos. Em um deles fica a casa onde ele mora até hoje. Aqui ficou arrendando terras por 18 anos e alugando as casas que ele construiu nesses terrenos.
Nesse tempo Joaquim tornou-se pai de 14 filhos, dos quais apenas seis estão vivos. E ao final desses 18 anos o arrendamento já não estava rendendo o suficiente para manter uma família tão grande. Então Joaquim começou a trabalhar de “gato”. Gato era a profissão de quem contratava ajudantes para abrir terras e derrubar matas para que o proprietário pudesse plantar.
Joaquim lembra que se formava fila de gente em seu portão procurando contratar seu serviço. Ele conta que naquele tempo tinha gato que dava trabalho para sociedade, pois recebia de quem contratava e fugia sem pagar os funcionários. Mas também tinha contratantes que não pagavam o gato e este ficava encrencado com os peões que queriam receber.
Mas Joaquim lembra que com ele era diferente. Para garantir que ninguém ia ficar sem receber, ele combinava o valor com o dono da terra e recebia por semana. Assim ele também já repassava a parte de seus funcionários, que ele chamava de “camaradas”.
Mas a conversa com o contratante era bem quente. Joaquim combinava os valores por semana, mas avisava que caso o combinado não fosse cumprido ele tinha na cintura um revólver que faria justiça. E mostrando o revólver para o patrão ele dizia: “Tem essa criança aqui que é o comando. Não valeu o que nós estamos tratando vai virar nele. Ele é o meu advogado. É pá-buf, você cai morto e perde tudo”.
Joaquim ficou como gato por 10 anos. Pouco antes de parar com essa atividade já começou a trabalhar também no plantio e colheita de mandioca, que ia para Araruna. Mas um dia foi puxar um pé de mandioca quando sentiu a vista escurecer. Levantou-se no mesmo momento, melhorou, e decidiu que iria se aposentar.
Ele então se aposentou aos 62 anos e foi tocar uma roça pequena e trabalhar com uma carroça de frete. Fez assim até sofrer dois acidentes, um em 2008 e outro em 2010. Dali em diante Joaquim parou de tocar roça, mas continua com os fretes da carroça até hoje. Ele explica que não pode parar completamente, pois se ficar dois dias parado endurece seu corpo. E o Centro de Convivência do Idoso é o endereço que ele frequenta para dançar os bailes da terceira idade.