Mexendo na Bolsa: Preconceito: você não tem teto de vidro?
Mexendo na Bolsa já foi blog, onde seis mulheres despejavam seus conteúdos a fim de compartilhar o tão fantástico e peculiar universo feminino. Aqui e agora é coluna! Duas vezes por semana você pode abrir o zíper e se sentir à vontade para vasculhar nossas bolsas. Falaremos de amor, do não-amor e de um possível amor. Também vamos nos deliciar narrando nossas pitorescas aventuras de mulheres de quase 30. Amantes do sexo masculino, destinaremos a eles um tanto de nossos versos (com ou sem rima) e de nossas prosas. Além disso, aqui você vai encontrar tudo o que tem na bolsa de uma mulher: bilhetes, creme, maquiagem, dinheiro (no começo do mês), escova de dente, perfume, kit de primeiros socorros, documentos, celular, chaves (do carro, da casa, do quarto, do coração), absorvente. Intimidades. Pode mexer!
Preconceito: você não tem teto de vidro?
Não é a Aids que assusta, é o preconceito. Porque, se a Aids assustasse, os casos teriam diminuído. As pessoas usariam preservativos nas relações. Não, Aids não assusta. Gravidez dá mais medo, até. Tanto que adultos e jovens tendem a se proteger de gravidez com pílulas contraceptivas, mas se esquecem dos preservativos feminino e masculino. Porque Aids se esconde, gravidez não. Aliás, os portadores tentam de toda maneira esconder o vírus. Para não serem taxados, excluídos humilhados.
Um dos maiores medos de qualquer portador do vírus HIV é que os outros descubram que ele é soropositivo. Em sua maioria, eles vivem com o segredo. Queimam os rótulos dos remédios, inventam desculpas de idas ao Ambulatório, cedem quando o parceiro diz que não é preciso o uso da camisinha. Isso tudo porque têm medo da rotulação, do preconceito, do estigma.
Não só os portadores do HIV têm medo de julgamentos, mas qualquer pessoa. Por isso os ‘diferentes’, aqueles que fogem do que conhecemos por situação de normalidade, que é bem aceita pela sociedade justamente porque fica bonita em qualquer porta-retrato, escondem-se. Escondem aquilo que não condiz com os padrões impostos pela atualidade.
Apesar de grave, a Aids deveria ser tratada como qualquer outra doença crônica. Precisa de cuidados, tem tratamento, prevenção, mas a cura é desconhecida. E o contágio sequer se dá de uma maneira preocupante. Não se pega pelo ar, pelo aperto de mão, abraço ou beijo na boca. É preciso contato com o sangue infectado, através de área exposta. Sangue infectado na pele não tem perigo, por exemplo.
“Infelizmente, a sociedade rotula eles”, conta a enfermeira Valéria Onofra da Cruz. Para ela, enquanto essa rotulação ainda existir, os pacientes vão continuar com dificuldade de aderirem ao tratamento. Outro ponto interessante é que muitos pacientes de HIV, pela falta do cuidado na prevenção, acabam por adquirir outras DSTs. O ginecologista Saul Sachetti acredita que o maior problema para o portador do HIV ainda é o preconceito. “Existe um preconceito muito grande, mas a qualidade de vida da pessoa é boa, em função dos medicamentos que se tem”. E, garante o médico, ele é geral, pois é preciso frisar que preconceito é toda ideia ou conceito formado de maneira antecipada, sem fundamento sério ou imparcial, sem base em dados objetivos. Esclarecimento e informação são dois pilares importantes no combate ao preconceito.
A Aids e o tabu do sexo
Aquela cicatriz que perdura, a marca oculta que o preconceito deixa em cada um, o medo de se abrir à sociedade, a Aids deixou de ser há tempos a doença do século, mas o estigma persiste. “É você usar uma situação o resto da vida, como foi estipulado anos atrás”, acrescenta Valéria.
Para ela, muito ainda ficou daquela ideia de que quem tem HIV é o sujo do sujo do ser humano. “A gente sabe que não é assim”. Isso talvez se deva pelos grupos de risco a que se taxava a Aids antigamente. Como a doença estava ligada especialmente à promiscuidade, a sociedade ainda vê o HIV como um mal que ataca os bons costumes familiares.
A psicóloga pós-doutoraem Educação Sexual, Eliane Maio, acredita que o fato de ter sempre a lembrança do contágio sexual marginaliza ainda mais os portadores. “Pois o sexo ainda é um tabu perante muitas pessoas. Ficou ligado aos homossexuais, que ainda são considerados promíscuos, depravados. Infelizmente este preconceito acaba marginalizando-os e a prevenção, que seria adequada para todos, acaba ficando de lado”, crê. Além dos homossexuais, leva-se em conta que profissionais do sexo e,dessa forma, maridos promíscuos eram passíveis de ter a doença, como se pessoas que não têm esse tipo de envolvimento não tivessem chance de adquirir o vírus. Na verdade, toda pessoa que tem qualquer relação sem uso de preservativo está passível de adquirir o vírus da Aids ou qualquer outra doença sexualmente transmissível. Mesmo que seja com o companheiro ou companheira, em quem se confia, mas que não se sabe de todos os passos diários. Por isso, é importante pensar bem, antes de julgar. Você nunca se colocou em situação de risco, está completamente tranquilo em relação à Aids ou outras doenças? Ou será que, assim como o meu, o seu teto também é de vidro?
Não percam o lançamento do livro Um Olhar Sobre a Aids amanhã, às 20 horas, na Biblioteca Municipal Professor Egydio Martello, anexa à Estação da Luz, no centro de Campo Mourão. E leve R$ 15 para adquirir um livro! Venha conferir nossos olhares sobre uma doença ainda sem cura. Sensações, perspectivas, relatos de vidas tão corriqueiras e tão impressionantes. Conheça suas lutas diárias contra o preconceito. Até mesmo o próprio. Esperamos vocês!
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Paula Fernandes não é cantora, é jornalista. Com diploma e tudo. Adora dar opinião e morre de medo de ser mal interpretada. Até tem lá seus preconceitos, que esconde no meio da bagunça embaixo da cama, mas luta contra todos eles. Acredita que o mundo é grande demais para ideias pequenas. Por isso sonha alto, lá em cima. Tem, embaixo dos caracóis dos seus cabelos, um emaranhado de dúvidas e certezas indefinidas. Que ainda podem trocar de lugar. Como seu estado civil: atualmente, enrolada. Porque ama, ama muito, ama demais. E ama fácil, sem nem escolher. Basta um sorriso bonito, um olhar mais atencioso… Contudo, sempre acha que recebe pouco. Talvez pela carência crônica de que sofre, não sabe bem. Quer paulear? http://paulassis.blogspot.com
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