Mexendo na Bolsa: E quando a fé mente?

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E quando e a fé mente?
Líderes religiosos às vezes abusam do poder de persuasão que têm sobre os fiéis. Até onde acreditar no que eles dizem?

Em 2009, o pastor Silas Malafaia, um dos pastores que mobiliza as maiores multidões no Brasil, respondeu à pergunta de uma fiel de uma maneira um tanto quanto inusitada. Ao questionar se poderia manter relações sexuais com o esposo durante a gravidez e se havia a possibilidade do bebê engravidar dentro da sua barriga (eu li isso essa semana e confesso que ainda não consigo acreditar que essa pergunta seja verdadeira…), a fiel obteve a seguinte resposta do pastor: “Sim, é permitido. E o bebê pode engravidar apenas se for do sexo feminino. Se suspeitar que sua filha está grávida, interrompa as relações sexuais imediatamente, porque você corre o risco de engravidar o bebê do seu bebê, e isso pode trazer sérias complicações”.

Vemos todos os dias fiéis que seguem à risca o que seus líderes religiosos falam, sejam eles pastores, bispos, padres… Para o teólogo Elton Tada, os líderes religiosos têm o papel de assistir às necessidades religiosas dos seguidores e membros de suas instituições. “Essa é sua função primária e inegável. Para atingir esse fim os líderes devem focar no ensinamento das doutrinas que regem sua religião, sendo que muitas vezes isso implica também na organização da vida comunitária dos membros, devotos ou seguidores”, justifica. Contudo, todo líder religioso, garante o teólogo, é, em algum sentido, transgressor de valores éticos. “Acontece que os valores são instituídos dentro de uma cultura específica e a religião cruza a cultura todo o tempo, muitas vezes para reafirmar valores comuns dentro daquela estrutura cultural específica, outras para negar e protestar contra determinadas ações culturais”, pontua. É como o caso do posicionamento contrário da Igreja Católica – e não somente dela – ao uso de contraceptivos. “Os métodos utilizados para evitar a concepção são objetos de visão ampla e contínua em nossa sociedade e só são permitidos legalmente porque se entende que a atividade sexual não é por si só uma atitude incorreta. Entretanto, para a Igreja, a atitude sexual tem o único e exclusivíssimo fim reprodutivo. Assim, para que se possa sustentar uma ideologia religiosa, é necessário primeiro transgredir os valores culturais instituídos na sociedade”, lembra Tada.

Apesar de individual, a religião é movimentada há tempos pelos líderes religiosos, que arrastam multidões consigo. E, garante o teólogo, isso apenas acontece porque eles encontram muitos fiéis com necessidades e ideais semelhantes. “Essa semelhança é entendida, a princípio, a partir de uma educação religiosa básica de determinadas culturas, mas no ambiente pós-moderno globalizado em que vivemos, podemos ver que o trânsito religioso é possível e pessoas de origem distintas acabam se encontrando em uma ‘busca’ ou ‘causa’ comum”. Perceber, também, que as religiões não são estruturas estáticas e que respondem a eventos e necessidades específicas em momentos específicos e a diferentes pessoas também é importante. Tanto que, sempre e cada vez mais, as religiões utilizam os meios de comunicação de massa, o que tem sido um fator favorável ao aumento de eventos religiosos com um grande número de pessoas, comenta o teólogo.

Nos dias de hoje, a religião vai até onde o sujeito permitir em sua vida, já que, teoricamente vivemos um momento de liberdade de culto no país. “Há certamente aqueles que são regidos por ditaduras religiosas de suas famílias ou ambientes. Mas em geral a religião não atua onde o sujeito não permite”, anota Tada. Procurar ter uma boa educação é fundamental para não se deixar levar por informações equivocadas dos líderes religiosos. Mesmo porque, não é sempre que a informação equivocada é realmente um engano do líder. Quando isso acontece, ele até pode vir a ser corrigido. Contudo, e se a intenção dele é ensinar algo notoriamente equivocado? Aí, acredita o teólogo, cabe ao indivíduo aceitar ou não aquilo como uma nova verdade. “A religião tem esse poder intrínseco de poder dizer qualquer coisa no âmbito do ‘equivocado’, pois a partir do momento que esse equívoco é aceito, torna-se parte da crença de alguém e a liberdade de crença deve ser respeitada. Por outro lado, ensinos equivocados podem ser vistos em diversos âmbitos da sociedade, no lar, na escola, isso é comum. A questão é que os ensinos e as informações equivocadas podem ser equivocadamente aceitas ou conscientemente aceitas. No primeiro caso, a sociedade precisa corrigir, no segundo, respeitar”, ensina Tada.

E você, até onde deixa a religião influenciar em sua vida? Aceita qualquer ‘doutrinamento’ sem questionar?

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Paula Fernandes não é cantora, é jornalista. Com diploma e tudo. Adora dar opinião e morre de medo de ser mal interpretada. Até tem seus preconceitos, que esconde no meio da bagunça embaixo da cama, mas luta contra todos eles. Acredita que o mundo é grande demais para ideias pequenas e busca sempre ir mais longe. Enfrenta seus medos, acredita e faz. E fez, com duas amigas, um livro-reportagem, o Um Olhar Sobre a Aids. Tem, embaixo dos caracóis dos seus cabelos, um emaranhado de dúvidas e certezas indefinidas. Anota as mesmices diárias no seu blog, o pauleando (http://paulassis.blogspot.com/). E, às vezes, no twitter: @paulaafernandes.
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