Mexendo na Bolsa: Dia do Orgulho Gay X Dia do Orgulho Hétero
Mexendo na Bolsa já foi blog, onde seis mulheres despejavam seus conteúdos a fim de compartilhar o tão fantástico e peculiar universo feminino. Aqui e agora é coluna! Duas vezes por semana você pode abrir o zíper e se sentir à vontade para vasculhar nossas bolsas. Falaremos de amor, do não-amor e de um possível amor. Também vamos nos deliciar narrando nossas pitorescas aventuras de mulheres de quase 30. Amantes do sexo masculino, destinaremos a eles um tanto de nossos versos (com ou sem rima) e de nossas prosas. Além disso, aqui você vai encontrar tudo o que tem na bolsa de uma mulher: bilhetes, creme, maquiagem, dinheiro (no começo do mês), escova de dente, perfume, kit de primeiros socorros, documentos, celular, chaves (do carro, da casa, do quarto, do coração), absorvente. Intimidades. Pode mexer!
O Dia do Orgulho Gay x Dia do Orgulho Hétero
Deu 32 votos contra 2 na enquete em que o Mexendo na Bolsa perguntou se era mesmo necessário o Dia do Orgulho Hétero. Duas pessoas, apenas, votaram pelo sim, afirmando a necessidade da data. Pena que isso não aconteceu na câmara municipal de São Paulo (logo a cidade que realiza a maior Parada Gay do mundo!), que aprovou o dia o Orgulho Hétero, uma proposta do vereador Carlos Apolinário (DEM) – reparem no partido -, que sabe se lá o motivo, acha pertinente o tal dia. O pior é que esse tipo de ideia é que nem coçar, é só começar. Daí lá em Fortaleza já tem gente também querendo aprovar o “Dia do Medo Macho”, como ironizou – tão precisamente – a jornalista Eliane Brum.
O professor de comunicação social e jornalista, Samilo Takara, atenta: “O ‘Orgulho Hétero’ é uma coisa que me preocupa, porque não há discriminação a heterossexuais, eles não são oprimidos”, afirma. Ele, que é mestrando em Educação, pesquisador de Comunicação e Cultura com ênfase nas relações de Identidade e Diferença Culturais, considera que a data é uma comemoração à opressão. “Não precisamos de um dia da Consciência Branca, porque ser branco não é desvio, é norma”, compara.
Samilo explica que o/a branco/a, o homem, o/a cristão, o/a heterossexual são algumas normas. Ele conta que um texto do pesquisador Richard Miskolci (UFSCar) expressa essa importância de ter claro essas delimitações. “A sociedade proliferou durante séculos e séculos que este é o padrão ideal. É por isso que sofrem tanto os negros e as etnias, como no caso, eu sou mestiço de ascendência italiana e japonesa, tenho que gostar de peixe. É regra, japonês come peixe. E quando digo que não gosto, não sou respeitado, sou praticamente agredido com frases como ‘que absurdo! Não come peixe, você é uma farsa’. E é essa a questão, não estar na norma social não é ser uma farsa, e sim ser um indivíduo exercendo sua identidade”, defende.
Ele chama a atenção para um fato incontestável: nunca se soube de grupos gays que atacam e violentam meninos héteros, enquanto o contrário é comum de ocorrer, sobretudo em São Paulo, onde o Dia do Orgulho Hétero foi aprovado. Para ele, a aprovação trata-se de um contra-poder, uma reação aos direitos e, até mesmo de certa liberdade, que os homossexuais conquistaram nos últimos anos.
“Temos uma união civil estável no país. Agora os líderes religiosos conservadores querem ‘proteger’ as famílias cristãs. A questão é que não se vira gay. Se é. Agora podemos vivenciar diferentes possibilidades ao invés de sofrer com vontades e medos e tentar se matar na adolescência, engordando as estatísticas de que 1 homossexual comete suicídio por não aceitação social ou da família, e de que 1 homossexual é morto a cada dois dias por crime de ódio e preconceito (GGB – Grupo Gay da Bahia, relatório de violência contra homossexuais em 2009). Acredito que a aprovação deste dia foi para revidar a aprovação da união civil”, afirma.
As datas são necessárias
Dia do Orgulho Gay, Dia da Consciência Negra, Dia da Mulher. Essas datas são realmente necessárias? Para o professor de comunicação social elas são extremamente importantes. “Os dias de Orgulho, os beijaços, o queimar dos sutiãs, os terreiros de candomblé, umbanda e quimbanda, as rodas de capoeira, as missas, as ações do dia a dia e tantas outras possibilidades são necessárias”, ressalta. Ele lembra que uma parte significativa dos profissionais de educação, principalmente os dos anos iniciais, ainda trabalha com datas comemorativas e que com isso há visibilidade para os temas. “Ter essas datas começa a tirar do limbo a ideia de que ‘criança não pode saber isso’ para ‘faz parte do calendário, tem que explicar’”.
Embora importante Samilo acredita que só essas datas não mudam a realidade. “Porque só nós, conscientes de que devemos respeitar e colaborar para as lutas das diferenças é que fazemos o necessário. Mas é um começo. Ter um dia de orgulho para as minorias já mostra que elas podem ser visibilizadas. E aí, ao começarem a lutar pelos direitos, não devem parar, nunca! Foi por um dia do Orgulho Gay que se lutou na Parada pela união civil estável. Um dia, assim espero, conseguiremos o tão sonhado respeito”, opina. Para finalizar, ele é categórico, salientando a importância do indivíduo ter ciência de sua cultura e de não querer subjugar outras pessoas por meio do que acredita ser certo. “Não agir com pré-conceitos”, afiança.
Afinal, ninguém tem o direito de julgar as escolhas alheias ou o que é importante – ou não – para o outro. E você, o que acha sobre o Dia do Orgulho Hétero? E das datas? Acha que elas são necessárias na luta pela igualdade (menos a do Orgulho Hétero, né?!!!)?
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Larissa Bortolli é jornalista. É metade feminista e outra metade também, embora às vezes seja machista. Evita os ‘istas’, mas nem sempre se livra deles. Dificilmente usa salto, porque prefere os rasteirinhos. Ainda não adotou a maquiagem e a escova nos cabelos no dia a dia. Gosta de mastigar alegrias, pizza e sorvete. Nada boa com relacionamentos, diz-se sozinha por opção (dos homens). Prefere os morenos e barbudos, mas pode ser só moreno. É viciada em filmes, mídias sociais e no seu sobrinho. Adora um drama, tanto na ficção quanto na vida real. Só tem uma certeza na vida: não ter certeza. Daí divaga. Sem grandes pretensões quer dominar o mundo, o seu mundo. Quando dá vontade também escreve aqui: http://lapsosonline.blogspot.com/
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