Meu corpo, minhas regras: Vestido curto, salto alto e perfume podem significar muito mais do que você imagina

Mexendo na Bolsa já foi blog, onde seis mulheres despejavam seus conteúdos a fim de compartilhar o tão fantástico e peculiar universo feminino. Aqui e agora é coluna! Duas vezes por semana você pode abrir o zíper e se sentir à vontade para vasculhar nossas bolsas. Falaremos de amor, do não-amor e de um possível amor. Também vamos nos deliciar narrando nossas pitorescas aventuras de mulheres de quase 30. Amantes do sexo masculino, destinaremos a eles um tanto de nossos versos (com ou sem rima) e de nossas prosas. Além disso, aqui você vai encontrar tudo o que tem na bolsa de uma mulher: bilhetes, creme, maquiagem, dinheiro (no começo do mês), escova de dente, perfume, kit de primeiros socorros, documentos, celular, chaves (do carro, da casa, do quarto, do coração), absorvente. Intimidades. Pode mexer!

Meu corpo, minhas regras: Vestido curto, salto alto e perfume podem significar muito mais do que você imagina

Mexeram com você na rua. Gostosa! Depois, na festa, um cara que você não conhecia ficava se esfregando em você, aproveitando-se da falta de espaço que há nas baladas. Outro dia, você, empolgada com o verão, resolveu vestir um tomara que caia com uma saia, nem tão curta e nem tão comprida. Vadia foi o predicativo escolhido para lhe definirem. Daí se um dia você sofrer abuso sexual a culpa será sua. O cara que lhe deixou acuada verbalmente ou que lhe pegou pelos cabelos a fim de sacanagem sem consentimento não tem culpa. A culpada é você, que tem seios, bunda, curvas. “Também né, com a roupa que você tava”, é o argumento que, geralmente, usam.

Para a maioria dos homens, um decote ou uma minissaia é um convite. Sim, um convite. Convite promíscuo, claro. Porque, segundo alguns do sexo masculino, até o salto alto induz ao sexo. “Mulher usa salto alto para empinar a bunda”, escutei outro dia. É. Talvez umas usem com esse objetivo, mas grande parte o usa por causa da feminilidade. Afinal, salto alto é salto alto: inspira elegância, acima de tudo. Ou não? Agora estou em dúvida! Roupas e sapatos são estimulantes sexuais. E o perfume também! “Com esse cheiro de baunilha e chiclete aí você tá querendo dizer outra coisa”. Pronto, mais uma vez eu disse: Coma-me! Será?

Esse pensamento de que é a mulher quem provoca o abuso sexual é comum. Pensamento bem pequeno, quase desatino, mas demasiadamente defendido por muitos.  Recentemente um bispo de São Paulo, Dom Luiz Gonzaga Bergonzini, da diocese de Guarulhos, afirmou: “Vamos admitir até que a mulher tenha sido violentada, que foi vítima… É muito difícil uma violência sem o consentimento da mulher, é difícil”. E depois emendou: “Há os casos em que não é bem violência… ‘Não queria, não queria, mas aconteceu…’’ ( mais sobre o caso aqui http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI246076-15230,00-O+TESTE+DA+CANETA+E+O+MOTORISTA+GAY.html )

Infeliz o comentário, não? Foi por causa de afirmações como esta que mulheres do mundo inteiro se reuniram e promoveram a Marcha das Vadias, que começou lá no Canadá em Toronto. O movimento chegou ao Brasil e aqui no Paraná aconteceu nesse sábado, 16, em Curitiba. A marcha protesta contra o conceito de “mulher estuprável”, promovendo o direito do sexo feminino se vestir como bem entender e quiser, sem que isso seja considerado um “convite”.

Na Marcha das Vadias, circulam cartazes como: “Eu posso escolher com quem quero transar“; “Não diga como devemos nos vestir; diga aos homens para não estuprarem’; “Este é meu corpo, meu precioso corpo me pertence”; “Meu corpo, minhas regras” e “A minha minissaia não tem nada a ver com você”. O objetivo é mostrar que, independente do que a mulher veste, nada justifica a violência.

É bacana também porque o nome da passeata é pejorativo, o que aumenta o debate acerca do universo feminino, no sentido de mostrar que todas as mulheres são vadias, quer queiram ou não. Porque o vadia da marcha não é no sentido de se ser ou não devassa, mas de ser livre. Das mulheres terem o direito de se comportar como quiserem, de vestirem o que quiserem e de falar abertamente sobre o que quiserem. Até falar sobre sexo sem que isso seja uma insinuação. No geral, um salto alto e um perfume doce não significam tanta coisa assim para quem os usa.  E nem a minissaia, o vestido curto, a calça justa…

Larissa Bortolli é jornalista. É metade feminista e outra metade também, embora às vezes seja machista. Evita os ‘istas’, mas nem sempre se livra deles. Dificilmente usa salto, porque prefere os rasteirinhos. Ainda não adotou a maquiagem e a escova nos cabelos no dia a dia. Gosta de mastigar alegrias, pizza e sorvete. Nada boa com relacionamentos, diz-se sozinha por opção (dos homens). Prefere os morenos e barbudos, mas pode ser só moreno. É viciada em filmes, mídias sociais e no seu sobrinho. Adora um drama, tanto na ficção quanto na vida real. Só tem uma certeza na vida: não ter certeza. Daí divaga. Sem grandes pretensões quer dominar o mundo, o seu mundo. Quando dá vontade também escreve aqui: http://lapsosonline.blogspot.com/