Há 50 anos, Raul Seixas fazia história no Cine Plaza, em Campo Mourão

Chovia muito naquela quarta-feira, 18 de agosto de 1976, quando Campo Mourão recebeu um dos personagens mais marcantes da música brasileira. Raul Seixas estava em uma turnê-relâmpago pelo Paraná, com apresentações em dez cidades em dez dias, e subiu ao palco do histórico Cine Plaza. O mau tempo afastou parte do público, mas não impediu o espetáculo. Cinquenta anos depois, fotografias, discos autografados e depoimentos ajudam a reconstruir uma noite que entrou para a memória cultural mourãoense.

Na excursão, Raul era acompanhado por três integrantes da banda Flamboyant: Áureo, na bateria, Carlinhos, no baixo, e Gabriel O’Meara, na guitarra. O’Meara, que também integrou a banda O Peso e atuava como jornalista, registrou os bastidores da viagem em um diário publicado no Jornal de Música, nº 22, de setembro de 1976. Sobre Campo Mourão, deixou um registro direto: “Esse show também foi num cinema, mas choveu tanto que tivemos só metade do público previsto.”

A vinda do “Maluco Beleza” foi uma iniciativa da União Mourãoense dos Estudantes Secundaristas (UMES), então presidida por Edivaldo Godinho Lopes, o Futrika. Sem internet ou redes sociais, os jovens passaram a semana mobilizados na divulgação. Espalharam cartazes, colocaram placas escritas à mão nas esquinas e anunciaram o espetáculo pelos mais diferentes meios. Elio Maciel, que participou daquele esforço, recorda que a chuva caiu intensamente durante o dia, mas parou próximo ao horário da apresentação. Para ele, a lembrança permanece viva meio século depois: “Foi sensacional!”

Raul tinha 31 anos e vivia uma fase importante de sua carreira. Em 1976, lançava o álbum Há 10 Mil Anos Atrás e já havia consolidado sua identidade artística, misturando rock, cultura popular, filosofia, misticismo e crítica social. Para os jovens de uma cidade do interior paranaense, acostumados a acompanhar suas músicas pelo rádio e pelos discos de vinil, assistir de perto a Raul Seixas representava um acontecimento extraordinário.

Depois do espetáculo, Raul encontrou integrantes da UMES e outros mourãoenses na tradicional Churrascaria Itaipu, de Osmar Angheben. Foi ali que uma fotografia eternizou sua passagem pela cidade. No registro aparecem, entre outros, professor João Pedro (in memoriam), Namir Piacentini, José Carlos “Faro Fino” da Silva, Euclides Gracioli, Neuci Teodoro de Oliveira, Vanilda Bisi, Futrika, João Dorneles, Nelson de Freitas Góes e João Sérgio Kffuri (in memoriam). Elio Maciel também estava no encontro, embora não tenha aparecido na fotografia.

Outro testemunho daquela noite permanece com a família do professor Bernardo Matos, admirador de Raul, que conseguiu discos autografados pelo cantor. Os LPs são atualmente preservados por seu filho, Ivens, e, ao lado da fotografia e dos depoimentos, tornaram-se documentos da presença do artista em Campo Mourão.

A apresentação revela também a força do movimento estudantil na vida cultural mourãoense dos anos 1970. Ao contratar Raul Seixas e mobilizar a cidade para o espetáculo, a UMES mostrou que os estudantes atuavam também como importantes agentes culturais. Em 18 de agosto de 2026, completam-se 50 anos daquela quarta-feira chuvosa. Raul permaneceu poucas horas em Campo Mourão, mas deixou uma história que atravessou gerações. Meio século depois, o Maluco Beleza continua presente na memória da cidade.

* Jair Elias dos Santos