“Ele se sentiu menor que um cachorro”, relata advogado sobre homem com AVC durante abordagem de trânsito

A família de um homem com sequelas de um AVC, que foi deixado na calçada após a apreensão do veículo em que estava, em Campo Mourão, pretende buscar medidas legais para apurar a conduta dos agentes de trânsito envolvidos na ocorrência.

O caso aconteceu na tarde dessa segunda-feira (17) e ganhou repercussão após imagens da situação serem divulgadas nas redes sociais. O advogado Roberson Ferreira Bueno, que representa a família, afirmou que recebeu uma ligação do cunhado da vítima relatando o ocorrido. Segundo ele, a orientação foi para que a família procurasse a Polícia Civil e registrasse um boletim de ocorrência, a fim de verificar se havia elementos que pudessem caracterizar algum crime.

De acordo com o advogado, a família não questiona a existência das irregularidades encontradas no veículo. O automóvel possuía 61 multas de trânsito, que somavam mais de R$ 18 mil, além de dois bloqueios judiciais que impediam a emissão do licenciamento e um bloqueio administrativo junto à Polícia Rodoviária Federal (PRF). A condutora também estaria com a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) vencida há mais de dois anos.

Para Bueno, porém, a principal preocupação da família é a maneira como o homem, que apresenta dificuldades de locomoção em razão do AVC, teria sido tratado após a retirada do veículo. “O que gerou grande revolta foi o ato desumano de deixar uma pessoa acometida por AVC na situação em que ela esteve”, afirmou o advogado.

Segundo o relato apresentado à defesa, durante a abordagem a condutora teria perguntado aos agentes o que poderia fazer diante da situação. Conforme Bueno, ela teria sido informada de que não seria responsabilidade dos agentes prestar assistência, mas que poderia acionar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU).

A família afirma que tentou solicitar o atendimento, mas não havia ambulância disponível naquele momento. Diante disso, a condutora teria buscado ajuda de familiares e amigos.

O advogado também questiona o cenário registrado nas imagens que circularam pelas redes sociais. Segundo ele, no momento em que o homem aparece na calçada, não havia agentes de trânsito, viatura, veículo da família ou guincho no local.

“Se for analisar o vídeo, não tem uma viatura no local e nenhum agente presente. O veículo da vítima também não está ali, e nem sequer o guincho. A situação era de total abandono perceptível pelas imagens que foram divulgadas”, declarou.

Outro ponto destacado pelo advogado é a exposição da vítima nas redes sociais. Segundo ele, a família ficou ainda mais abalada porque as imagens mostrariam o homem em uma situação de fragilidade, inclusive apresentando ânsia de vômito. Bueno afirma que a família não foi responsável pelas filmagens e que outras pessoas registraram e divulgaram as imagens.

Ainda conforme o advogado, o homem ficou emocionalmente abalado com o episódio e teria relatado à família que se sentiu inferiorizado diante da situação. “Ele disse que se sentiu menor que um cachorro.”

A Prefeitura de Campo Mourão informou anteriormente que o veículo foi devidamente abordado e que, durante a fiscalização, foram constatadas as diversas irregularidades de trânsito. O município também informou que será realizado um procedimento administrativo para apurar a conduta dos agentes e esclarecer as circunstâncias do caso.

Segundo Roberson Ferreira Bueno, a família pretende acompanhar a apuração e buscar elementos que possam esclarecer o que ocorreu.
“Vamos tentar buscar provas antecipadas e requerer uma reparação”, afirmou.

O caso deverá ser analisado pelas autoridades responsáveis, enquanto o procedimento administrativo anunciado pela Prefeitura poderá esclarecer a atuação dos agentes e as circunstâncias que levaram o homem a permanecer na calçada após a apreensão do veículo.