Depressão vencida pelo amor às plantas

“Sempre amei flores e plantas. Lembro quando na minha adolescência, a gente ia com a família no cemitério no dia de finados e eu escapava deles para procurar mudas de flores e levava para casa.”

Maria Aparecida de Siqueira Freitas, 61 anos, é casada há 42 com Aparecido Freitas, de 64 anos. Nascida em Adamantina, interior de São Paulo, em 1952, aos nove meses de idade teve paralisia infantil, que a deixou com uma pequena sequela. Já quando completou dois anos, Dona Maria conta que sua mãe começou a ter problemas psíquicos. Ela diz que seu pai correu com a esposa de um hospital para o outro. Gastou tudo o que tinha, mas não conseguiu reverter o quadro dela. Quando se esgotaram os recursos, ele a internou em um hospício.

Após o trauma, o pai deixou Maria Aparecida e seu irmão com a avó e saiu da cidade atrás de serviço.

“Apesar de ficar longe, meu pai sempre deu muito carinho pra gente. Sempre visitava minha mãe, mesmo ela não o reconhecendo. Ela não sabia que tinha filhos nem marido. Não tinha mais condições de viver no meio da sociedade. Foi muito sofrido. Até hoje é difícil falar”, relata emocionada.

Quando Dona Maria completou nove anos, a avó faleceu. Ela ainda ficou um tempo morando com parentes no Estado de São Paulo e aos 15 o pai resolveu trazê-la, junto com o irmão, para morar com ele, no município de Araruna.

Após um tempo, o pai e os filhos mudaram para o distrito de Santa Lúcia, em Peabiru. Foi neste local que Maria se casou com Aparecido Freitas, em 1971.

“No ano que a gente casou, nos mudamos para Campo Mourão para tentar vida nova. Mas não deu certo. A gente trabalhava na roça e viemos para cá com outra expectativa, mas acabamos na roça novamente. Foi aí que resolvemos voltar para o município de Araruna, no distrito de São Miguel onde tive minha primeira filha.”

Quando Maria Cristina nasceu, Dona Maria e o esposo resolveram voltar para o distrito de Santa Lúcia. “Eu lembro que a gente jogou umas tralhas em cima do caminhão e fomos embora. O único dinheirinho que a gente tinha era 50 cruzeiros. Quando chegamos, o homem cobrou 50 cruzeiros. Nós pagamos e ficamos sem nada. Eu com uma criança recém-nascida nos braços e ainda me recuperando da cesariana. Para sobreviver, a gente trabalhava três dias pra gente, na nossa roça, e outros dias pra fora para ganhar dinheiro para comprar mantimentos. Foi só por Deus mesmo.”

Maria Aparecida conta que ficou naquela situação até o nascimento da segunda filha, em 1974. “No final de 74 voltamos para Araruna. Desta vez para trabalhar por porcentagem. Só que em 1975 deu uma geada muito forte. Queimou tudo. O café foi no tronco. Meu marido estava muito doente, com problemas de rim. Lembro que muitas vezes o sol estava queimando lá fora, ele embaixo das cobertas, e eu na roça com as crianças e meu pai, que morava comigo. Colhemos o que restou da geada e ainda tentamos ficar um pouco mais, mas não deu.”

Foi em maio de 1976 que Dona Maria veio pela segunda vez à Campo Mourão e aqui ficou. O marido começou a trabalhar de servente nas construções. O primeiro serviço dele foi ajudar na construção da estação de tratamento de água da Sanepar. “Para ajudar na renda da família, comecei a trabalhar em um salão de beleza fazendo unhas e até aprendi a cortar cabelo. Fiz uma boa clientela no salão. Mas, com pena das crianças que estavam ficando sem a minha presença, resolvi atender em casa. Mesmo sem muita estrutura, minhas clientes vinham de longe para serem atendidas.”

Maria conta ainda que estava gostando da profissão, mas contraiu uma renite alérgica e precisou se afastar. “Fiquei uns dois anos sem fazer nada até que resolvi estudar. Eu não estudei quando era nova porque meu pai não deixava. Fiz só até a quarta série e parei. Ele dizia pra eu não me preocupar que meu marido me sustentava. Ele só incentivava meu irmão. Certo diz, como meu pai morava comigo agora, eu conversando com ele disse que se eu estivesse estudo, não precisava colocar as meninas tão novinhas para trabalhar neste mundo cão. Aí ele disse que se eu quisesse estudar ele não era mais contra. No outro dia eu fui no Colégio Dom Bosco e fiz minha matrícula. Com 33 anos eu entrei na 5ª série.”

Daquele dia em diante Dona Maria não parou mais de estudar. Já no próximo ano, em 1985,  ela fez um concurso do Estado e foi chamada para trabalhar como auxiliar de serviços gerais. “Eu sempre falava que não ficava mais do que dois anos na limpeza, porque era um serviço duro. Mas eu continuava estudando. Em 85 e 86 fiz aqui no Dom Bosco a 5ª e 6ª. Em 87 fui para o Integrado fazer o supletivo e terminei naquele ano a 7ª e 8ª. Em 1988 comecei o magistério. Neste mesmo ano mudou a direção do colégio e o novo diretor me tirou da limpeza e me colocou na biblioteca. Ele achava que era um desperdício com a capacidade que eu tinha, e ainda estudando, me deixar na limpeza.”

Para Maria Aparecida, a ajuda do diretor foi o início de uma trajetória de sucesso em sua vida profissional. No ano seguinte, em 89, ela passou de serviços gerais a auxiliar administrativo. Saiu da limpeza e foi trabalhar como secretária geral do colégio. Anos depois, em 1995, ela foi chamada para trabalhar no Núcleo Regional de Educação onde ficou até 1997. Em 1998 trabalhou na biblioteca do Rondon até 2000. E depois voltou para o Dom Bosco, onde trabalhou até 2008, ano que ficou doente.

“Eu era muito ativa. Enquanto trabalhava, eu continuava estudando. Em 1996 eu comecei a faculdade de Pedagogia, mas tranquei quando nasceu minha primeira neta. Eu me sentia responsável por tudo e todos. Era casa, filhas, netos, genro. Cuidava de meu pai também, que morou comigo até morrer, aos 87 anos. Quando fiquei doente, com problemas na coluna, parei tudo e fiquei em casa, afastada. Foi aí que piorei. Comecei a entrar em depressão.”

Diferente do que a maioria das pessoas fazem, ao invés de buscar ajuda nos remédios, Dona Maria resolveu se apegar às suas plantas. “Sempre amei flores e plantas. Lembro quando na minha adolescência, a gente ia com a família no cemitério no dia de finados e eu escapava deles para procurar mudas de flores e levava para casa. Em todos os lugares que passei, não lembro de nenhuma casa que tenha morado que não tinha flores e plantas. Eu tinha muitas na minha casa quando começou a doença, mas resolvi me dedicar mais e sarei. Hoje sou muito feliz e quando não estou bem e vou até as plantas, cuido delas, fico pertinho, troco vaso, terra, coloco adubo e logo melhoro. Minhas plantas são tudo pra mim. Me deram vida. Se eu estivesse abaixo de remédio, não sei o que teria acontecido.”

Hoje, Dona Maria é aposentada e mora com o marido. Tem três netos e duas filhas. O prazer dela é cuidar de suas flores. “Não consigo morar em um lugar onde não tenha plantas. Aprendi a valorizar mais as coisas que Deus criou. Quando olho para trás e começo a me lembrar de tudo o que passei, tenho ainda mais certeza que consegui superar muita coisa por ser apegada à natureza. Planta pra mim é sinônimo de vida.”