De volta ao Lar Paraná

A personagem desta edição já morou no Lar Paraná anos atrás e esta de volta a bairro depois de muita história. Volta feliz porque confessa gostar muito daqui. Em sua terceira união matrimonial, criou os três filhos dos primeiros casamentos ao lado de Jamil, o homem com quem vive até hoje. Atualmente trabalha em um setor do Estado, que foi fechado pelo atual governador. Sem salário, alimenta esperanças de que receberá os atrasados e de que o setor será reaberto pelo Município.

Claudete da Silva nasceu em Itaguajé, município do Paraná, a 21 de julho de 1954, quando aquela área rural não tinha mais que cinco mil habitantes e apenas uma escola. Lá permaneceu até o treze anos, período no qual já trabalhava no pequeno restaurante de sua mãe, que separada do marido criava os seis filhos (quatro homens e uma mulher). Moraram um tempo em Paranapoema, mas voltaram para Itaguajé.

Depois do retorno, algumas pessoas aconselharam a mãe de Claudete a morar numa cidade maior, onde teria condições melhores para criar seus filhos. Partiram para Goioerê, em 1963, cidade que vivia uma boa época de desenvolvimento, onde a mãe de Claudete arrendou um restaurante maior que o anterior.

Com o tempo passando, Claudete que era a mais velha das irmãs e tinha a responsabilidade de estudar, dar banho nos irmãos menores, lavar roupas, cozinhar e cuidar da educação deles já que a mãe trabalhava das 4h da madrugada às 23h. Por consequência, Claudete era uma criança adulta e sem infância.

Claudete foi educada por uma mãe que lutava pela vida e contra o preconceito de ser uma mulher separada que tocava um comércio dominado por clientes do sexo masculino, num tempo em que não ter um marido dificultava muito as coisas. Ela então ensinava aos filhos que não importava o que as pessoas dissessem, mas sim o que estavam de fato fazendo para sobreviver.

Em sua juventude Claudete – que tinha estudado até o ensino médio – sonhava em casar, ter filhos, um marido amigo. Mas de início não foi o que aconteceu. Aos 23 anos, por volta de 1977, ela se casou pela primeira vez, teve uma filha e o casamento durou pouco mais de quatro anos. Com isso, ela investiu em cursos ofertados pelo Centro Social Urbano de Goioerê. Como resultado conseguiu o seu primeiro emprego, na Coagel, cooperativa de Goioerê. Amasiou-se com o segundo homem de sua vida, aos 32 anos, e teve mais dois filhos. Mas a união também não deu certo.

Sempre trabalhando, Claudete juntou-se com o terceiro marido aos 37 anos e veio com ele para Campo Mourão por volta de 1991. Desembarcou no Lar Paraná, para morar na Rua Duque de Caxias, em uma casa do sogro, onde não precisava pagar aluguel. Com a ajuda do cunhado conseguiu um emprego no extinto Banestado, onde era recepcionista, servia café, fazia cotação do dólar, da poupança, levava malotes.

Com essa ocupação Claudete cuidou dos três filhos e do marido (Jamil), que teve problemas de depressão. “Não foi fácil”, ela recorda, pois o pai dos meninos não ajudou na criação dos filhos. Mas as circunstâncias duras foram duramente enfrentadas. Como ela diz: “Ninguém morre se ficar uns meses comendo arroz e feijão”.

Claudete, que agora estava satisfeita com o casamento, queria ainda cursar uma faculdade. Com 40 anos, iniciou o curso de Direito à distância numa faculdade de São Carlos, no Estado de São Paulo. Mas além de ser cansativo era caro, e ela teve que parar. Cursou, então, Pedagogia também à distância. Aos 44 anos estava formada, mas a faculdade não foi reconhecida pelo MEC.

Nesse ínterim Claudete e a família saíram do Lar Paraná e moraram em vários bairros de Campo Mourão, com a esperança de um dia voltar ao Lar Paraná. “Você sempre volta a um local onde você é bem recebido”, conta.

Foi também nessa época que o Banestado fechou e Claudete ficou desempregada. Em seguida ela foi trabalhar no Pró-Egresso, um departamento do Estado que encaminha quem teve problemas com a justiça para a prestação de serviços à comunidade, ou para um emprego ou para o retorno aos estudos. Entrou estagiária e virou supervisora.

Recentemente o setor foi extinto pelo governo do Paraná sem aviso prévio ou posterior para quem trabalhava nele. Por isso, Claudete continua trabalhando, com uma funcionária, que como ela, espera conseguir receber pelos últimos sete meses de trabalho e os que ainda virão, até que a função seja absorvida pelo município.

Há três anos conquistou o sonho de voltar ao Lar Paraná, onde mora com o marido Jamil e um dos três filhos.