Da lavoura para o caldo de cana
Meu nome é João Milani Sobrinho, tenho 65 anos. Sou casado com Maria Aparecida Mazzo Milani, 64 anos. Nasci em Arapongas e vivi lá até os 46 anos. Casei com 23. Tenho um casal de filhos. Sou morador do Conjunto Cohapar, Rua Periquito, 418.
Comecei minha vida na lavoura onde permaneci por mais de 40 anos. Meu pai tinha um sítio onde trabalhávamos com café.
Por conta do trabalho, fui pouco tempo na escola. Tenho apenas a 3ª série primária. Tenho nítido na memória a escolinha com carteiras de madeira. A professora batia muito na gente, metia a régua em nós. Na época não tinha dó não, até era usado se ajoelhar em cima do caroço de milho. A educação era diferente, uns podem até dizer que era covardia, mas pelo menos não existia essa roubalheira, essa maconhada, esse tanto de mortes que vemos hoje. Naquele tempo você podia largar o que quisesse no meio da rua ninguém roubava. Era um “farturão danado”. Tinha fruta a vontade, peixe, carne.
Quando eu tinha dez anos já fazia de tudo. Estudava, mas também carpia, coava café, rastelava, abanava. Logo, logo o tempo passou e me formei homem. Fui aprovado no exército, mas meu pai procurou uma maneira de não deixar eu ficar os onze meses servindo o agrupamento, pois julgava ser preciso que estivesse com ele na lavoura. Ele me via como o cabeça da casa. Precisava de mim para a colheita do café. E ele conseguiu.
Lembro que o trabalho com café era árduo. Bem cedinho a gente esparramava todo o grão no terreiro, deixando secar. Por volta das 16h00 amontoávamos e cobríamos com uma lona verde. Nós trabalhávamos o dia inteiro e às vezes era necessário carregar de setenta a oitenta sacos de café para guardá-los no período da noite, depois da labuta.
Meu tempo livre era apenas algumas horas nos finais de semana. Brincava de bola com meus amigos em um pasto.
Por mais de 40 anos minha vida foi assim. Me casei no sítio com uma moça que morava perto de nossa casa e continuei na mesma rotina.
Somente quando meus filhos começaram a crescer, que resolvi sair. Um amigo me aconselhou a vir para Campo Mourão, pois aqui conseguiria dar estudo para meus filhos. E foi isso que fiz. Aos 46 aos de idade saí direto do sítio, em Arapongas, para Campo Mourão.
Meu primeiro emprego na cidade foi na mecânica Roda Freio. Fiquei alguns anos lá, mas resolvi sair, pois não conseguia trabalhar mais em ambiente fechado. Posteriormente trabalhei uns três anos no ex Hospital Anchieta, como Assistente Geral. Depois fui mexer com jardinagem. Era algo que gostava de fazer, pois já era acostumado com a terra. Fiquei neste trabalho por cerca de nove anos. Certo dia apareceu uma oportunidade para trabalhar no Banco do Brasil no departamento de limpeza. Fiquei lá por três anos e me aposentei.
Como sempre fui muito ativo, não consegui ficar para em casa e resolvi trabalhar como garapeiro. Já faz dez anos que a renda deste trabalho tem contribuído nos investimentos da família. Graças a Deus vendo muito bem aqui. Meu caldo de cana é muito bom. O povo aceitou muito meu trabalho e dou crédito a isso pelo respeito que tenho às pessoas.
Sempre trabalhei honestamente. Quem trabalha assim nunca perde.