Jovens brasileiros preferem empreender a ter carteira assinada

Guilherme Bittencourt Alcantud, de apenas 20 anos, é exemplo de como o empreendedorismo virou opção profissional – Foto: Natalia Wacheski

O desejo de autonomia, flexibilidade e propósito tem provocado uma mudança de mentalidade na nova geração de profissionais brasileiros. Pela primeira vez, a abertura de um negócio próprio se tornou um objetivo mais desejado do que o emprego formal.

Dados de um estudo da Hibou Pesquisa e Insights revelam que, entre o público de 16 a 34 anos, 33% preferem ter a própria empresa, contra 32% que ainda optam pelo regime CLT. A radiografia do Sebrae/PNAD Contínua corrobora a tendência e aponta quase 5 milhões de jovens com até 29 anos gerenciando o próprio negócio.

ONDE ESTÃO E COMO ATUAM
Segundo a pesquisa do Sebrae, 43,5% desses novos empresários estão concentrados no Sudeste, 24,3% no Nordeste, 14,4% no Sul, 10,0% no Norte e 7,7% no Centro-Oeste. Em relação aos setores da economia, 57% atuam na área de Serviços, 17% no Comércio, 11% na Construção, 10% na Agropecuária e 5% na Indústria.

“Hoje, o jovem não quer apenas um crachá; ele busca propósito e quer criar soluções para problemas reais. Essa geração é movida pela vontade de ser dona da própria rotina e ver o resultado direto do seu esforço. Existe também o fator financeiro e o desejo de não passar a vida toda como subordinado”, explica Nelly H. Marques Cordeiro, coordenadora dos cursos de graduação na área de Gestão do Centro Universitário Integrado de Campo Mourão (PR).

Vários jovens empreendedores – Foto: Magnific

DO ENTUSIASMO AOS DESAFIOS
A jornada de empreender cedo é marcada por obstáculos específicos e estruturais. A falta de bagagem de mercado, o acesso limitado a capital e a escassez de networking profissional costumam ser os primeiros baldes de água fria.

“Em muitos casos, a ideia é boa, mas o empreendedor inicia sua trajetória sem conhecer profundamente o cliente, o mercado e a necessidade que pretende resolver”, esclarece o head de Inovação do Grupo Educacional Integrado, Fabrício Pelloso Piurcosky.

O especialista salienta que a mortalidade empresarial raramente acontece por um único motivo. “Os principais fatores envolvem falta de planejamento, gestão financeira inadequada, dificuldade para formar preço, ausência de controle de custos, baixo capital de giro e pouca capacidade de adaptação às mudanças”, complementa.

OBSTÁCULO DA CONFIANÇA AOS 20 ANOS 
O estudante do 6º período do curso de Administração do Integrado, Guilherme Bittencourt Alcantud, de 20 anos, vivencia essa realidade no dia a dia. Ele é fundador da Chateau Labs, empresa de software e inteligência artificial que desenvolve automações e atendentes virtuais via WhatsApp.

“A maior dificuldade é a credibilidade. Quando você é jovem, muita gente duvida da sua capacidade de entrega antes mesmo de te ouvir. Por isso, é necessário entregar o dobro”, relata.

EDUCAÇÃO CONTRA A MORTALIDADE DAS EMPRESAS

Com o intuito de mitigar riscos e transformar ideias em propostas consistentes, Nelly e Piurcosky defendem que a capacitação contínua é o caminho seguro. Para eles, a educação empreendedora reduz incertezas, aumenta a qualidade das decisões e desenvolve competências essenciais como criatividade, liderança, resolução de problemas e visão estratégica.

E para atender ao público jovem que deseja empreender, os cursos de Gestão do Centro Universitário Integrado (Administração, Ciências Contábeis, Processos Gerenciais, Marketing, Gestão Comercial, Gestão Financeira e Recursos Humanos) abordam conceitos de modelagem de negócios, finanças e liderança desde os primeiros semestres. “O curso de Administração me deu base para estruturar o que antes eu fazia só na intuição”, destaca Alcantud.

ECOSSISTEMA INOVADOR E SUPORTE FINANCEIRO
Além da grade curricular diferenciada, a instituição de ensino superior de Campo Mourão mantém o Integrow, um hub de inovação e empreendedorismo que conecta a comunidade acadêmica ao mercado de trabalho, a startups e a grandes empresas. Os melhores projetos dos alunos ainda podem receber aportes financeiros por meio do Corporate Venture Capital (CVC) do Grupo Integrado.

“Essa aproximação real faz com que o estudante aprenda na prática, errando e acertando dentro de um ambiente seguro e tecnológico. O acadêmico tem a oportunidade de tirar o projeto do papel, participar de programas de ideação, receber mentorias de profissionais do mercado e validar seu negócio”, explica Nelly Cordeiro.

Guia de sobrevivência para jovens empreendedores
Os especialistas Fabrício Pelloso Piurcosky e Nelly H. Marques Cordeiro resumem os seis principais obstáculos enfrentados pelos jovens empreendedores e o caminho para superá-los:

1. Falta de credibilidade e viés de idade
• O cenário: O mercado (investidores, fornecedores e clientes) costuma associar juventude à inexperiência ou à falta de compromisso.
• O desafio: Ser levado a sério quando você aparenta ser “jovem demais”.
• Como superar: Domine dados técnicos, apresente um plano de negócios impecável e mantenha uma postura profissional (focando em pontualidade, vestimenta adequada e comunicação clara).

2. Acesso limitado a capital
• O cenário: Aos 20 anos, a maioria das pessoas não possui histórico de crédito sólido, garantias (como imóveis) ou poupança acumulada.
• O desafio: Bancos tradicionais raramente concedem crédito para jovens sem garantias, dificultando o investimento inicial.
• Como superar: Recorra ao modelo de bootstrapping (crescer usando a própria receita), busque investidores-anjo, editais públicos de fomento à inovação ou rodadas de investimento com familiares e amigos.

3. Escassez de networking profissional
• O cenário: Parcerias e grandes contratos dependem de relacionamentos. Aos 20 anos, a rede de contatos costuma ser apenas acadêmica ou social.
• O desafio: Encontrar fornecedores de confiança, mentores experientes ou os primeiros clientes sem indicações de mercado.
• Como superar: Frequente eventos do setor, participe de associações comerciais locais, integre incubadoras de startups e utilize o LinkedIn estrategicamente para se conectar com referências da sua área.

4. Gestão de pessoas e liderança
• O cenário: Liderar equipes exige inteligência emocional, empatia e autoridade, habilidades lapidadas com a experiência.
• O desafio: Contratar, demitir, motivar e gerenciar conflitos, especialmente ao liderar colaboradores mais velhos e experientes.
• Como superar: Adote uma liderança horizontal baseada no respeito mútuo, mantenha uma comunicação transparente e não tenha medo de admitir que também está em processo de aprendizado.

5. Falta de experiência prática em Gestão
• O cenário: Ter uma excelente ideia técnica (como programar ou criar conteúdo) é completamente diferente de administrar um negócio.
• O desafio: Lidar com burocracia, fluxo de caixa, regimes tributários e planejamento estratégico. O erro na gestão financeira básica é o maior gargalo das novas empresas.
• Como superar: Busque capacitação contínua (cursos, livros de negócios, formação universitária focada na prática) e procure um sócio com habilidades complementares às suas (ex: você foca no produto, ele no financeiro).

6. Pressão social e equilíbrio pessoal
• O cenário: Enquanto seus amigos estão focados em festas, férias ou carreiras corporativas sem grandes responsabilidades após o expediente, você carrega o peso do negócio 24 horas por dia.
• O desafio: Lidar com a solidão do topo, a autocobrança e a incompreensão de pessoas próximas que preferiam ver você em um “emprego seguro”.
• Como superar: Blindar a saúde mental é prioridade. Defina limites claros para o trabalho e entenda que o seu ritmo e as suas escolhas de vida temporariamente serão diferentes dos seus pares.