Hotel Brasil: cinco estrelas no interior do sertão

Em 1951, Campo Mourão, com apenas quatro anos de sua emancipação, sofria com o drama da poeira “vermelha” e com a lama dos dias chuvosos. A eletricidade era insuficiente. Casas dispersas e sem o mínimo de conforto, somado com o drama do “bang-bang” da disputa pela terra.

O faroeste vivido por Campo Mourão mostra um lado da história que poucos conhecem. A cidade já foi um sertão perigoso e com desafios que poderiam ter feito de seu futuro uma incerteza.

Foi nesta época que chegou a cidade, a pioneira Dalva Boss, vinda de Curitiba, com apenas 37 anos de idade. Naquele ano, o catarinense Estevão Scheneider erguia um hotel na esquina da Avenida Irmãos Pereira com a Rua Araruna. Um imenso prédio de madeira de imbuia maciça. Para o trabalho, contratou carpinteiros de Santa Catarina. A construção estava no alicerce, quando Estevão Scheneider vendeu a construção para Dalva Boss. Quando adquiriu a construção, nem as paredes tinham sido erguidas. Era a metade do projeto do prédio de dois pavimentos, que posteriormente foram ampliados pela nova proprietária.  O hotel recebeu o nome de “Brasil”. Sua inauguração ocorreu em 9 de agosto de 1953.

Procissão de Corpus Christi na Rua Araruna, aos fundos, o imponente Hotel Brasil. 1960.

O Hotel Brasil foi à maior edificação de madeira da história de Campo Mourão, com dois pavimentos e 49 quartos. Seus hóspedes contavam com serviços de café da manha, almoço e jantar. Nos seus primeiros anos de funcionamento, com a insuficiência da energia elétrica, a água era aquecida por um fogão com serpentina movido a lenha. De Curitiba vieram, de caminhão, cerca de 20 camas de solteiro e quatro de casal, com guarda-roupas, colchões, lençóis, fronhas, travesseiros e cobertores. O Hotel Brasil terminou sua história com 40 quartos, quatro apartamentos, e amplo restaurante.

Personalidades do mundo político hospedaram-se no Hotel Brasil. Entre eles, o ex-presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira e os governadores Moysés Lupion, Bento Munhoz da Rocha Netto e Ney Braga.

Hotel Brasil em 1962.

Além de abrigar as pessoas que passavam ou ficaram definitivamente em Campo Mourão, o Hotel Brasil serviu de ponto de encontro das lideranças políticas das décadas de 1950 a 1960. Nestas reuniões, às vezes, acalorados pelo debate discutiam os rumos de Campo Mourão. As primeiras reuniões para formação da maçonaria em Campo Mourão foram realizadas no Hotel Brasil.

Hotel Brasil em 1987.

Em 1987 o prédio foi demolido. Segundo o jornal Tribuna do Interior, edição de 18 de maio de 1987, a demolição deu-se pelo fato de ‘estar fora dos padrões exigidos, também está em vias de ser demolido pela falta de segurança e higiene no local, principalmente por estar num terreno valorizado da cidade’. Outro fator citado pela reportagem era a implantação do Plano de Zoneamento de Campo Mourão.

No fim da década de 1980, sem sua imponência, o prédio foi demolido. A justificativa para o ato foi por questões de segurança, com a alegação de estar próximo de um posto de gasolina.

Prédio em fase final de demolição no final de 1987.

Com a sua demolição, o “Hotel Brasil” passou a atender numa simples edificação ao lado de onde funcionava. Em 2005, foi homenageado pela Câmara Municipal pelo seu cinquentenário de serviços na cidade. Sua fundadora, Dalva Boss, faleceu em 17 de agosto de 2005.

A Coluna agradece a sugestão do internauta João Vinícius Dsiedzic. Em breve estará exibindo neste espaço o filme “Como Surge uma Cidade”.