Sesc: “A Bíblia de Che” será lançada em C. Mourão

Miguel Sanches Neto

Evento será no dia 26, com a presença do escritor Miguel Sanches Neto

Está marcado para o dia 26 de agosto (sexta-feira), às 19h30min, no salão social do Sesc/Campo Mourão, o lançamento do livro “A Bíblica de Che” e patê papo com o escritor Miguel Sanches Neto. A entrada será franca e os ingressos deverão ser retirados antecipadamente (a partir do dia 22).

Miguel Sanches Neto nasceu em Bela Vista do Paraíso, em 1965, mas passou a infância em Peabiru. Fez o Colégio Agrícola de Campo Mourão (1980-1982), cursou Letras. Doutorou-se pela Unicamp (1998) e fez seu pós-doutorado na UMinho, em Portugal. É professor-associado na Universidade Estadual de Ponta Grossa, onde atua no Programa de Pós-Graduação em Linguagem, Identidade e Subjetividade.

Autor de mais de 30 livros, como os romances Chove sobre minha infância (Record), Um amor anarquista (Record) e A máquina de madeira (Companhia das Letras), traduzidos para o espanhol e para o francês. Lançou em 2015 o romance de história alternativa A segunda pátria (Intrínseca), sobre os nazistas no sul do Brasil, e em 2016 A Bíblia de Che (pela Cia. das Letras), um policial que se passa em Curitiba, Cuba e Bolívia. Recebeu, entre outros, o Prêmio Cruz e Sousa (2002) e Binacional das Artes e da Cultura Brasil-Argentina (2005).

O Suplemento Pernambuco publicou, em maio último, entrevista que o escritor concedeu a Rodrigo Casarin:

– Seu último livro foi inspirado no nazismo e em Hitler, agora um em Che Guevara. Por que trabalhar com esses personagens históricos? Como você os relaciona? O que representam para você?

R – Não há um projeto literário que trace uma relação entre estas duas figuras. A Bíblia do Che nasceu de forma natural. Eu tomava um vinho com um médico amigo, hoje homem rico, e ele me contou da existência desta Bíblia, que ele compulsou nos anos 1970. Um detalhe. Este médico era do MR8 e hoje é uma pessoa que fez fortuna pelo trabalho. O tema era fascinante demais para eu deixar de lado. Você me pergunta qual a relação entre Hitler e Guevara, e a minha resposta é nenhuma enquanto ideologia. Mas há uma coisa que os une. Foram dois líderes que investiram muito na autoimagem. Che e Hitler adoravam ser fotografados e deixaram uma coleção imensa de retratos. Foram midiáticos. Usaram a lógica das redes sociais antes de isso ser a praga contemporânea. O que eles representam para mim? Hitler é a encarnação do mal. A versão terrena do demônio, um demônio demasiadamente humano. Che é a força da juventude, do desejo, da inquietação, mas também da ilusão.

– O que é ser um Che Guevara hoje?

R – É ser alguém que não pensa em como se dar bem, em como ganhar respeitabilidade. É ser uma pessoa que não se contenta com o que está feito. A energia para se reinventar permanentemente é a sua maior marca. Não vejo o ideólogo, vejo nele principalmente esta fonte de vitalidade.

– E Cuba, ao seu entender, o que significa?

R – É o lugar onde gostaríamos de viver se pudéssemos acreditar no ser humano. Mas como o ser humano é esta matéria precária… Estive em Cuba antes de escrever este romance. Conversei com pessoas. Li livros. Observei as coisas. Acho que é uma bomba prestes a explodir. A estado totalitário obriga a população a sobreviver com pequenos expedientes, obtendo assim o mínimo. Tornou-se mais um museu a céu aberto da revolução, perdendo assim o seu sentido de atualidade. Aliás, este romance teve como primeiro título justamente esta expressão: Museu da Revolução.

– “Um ficcionista sem imaginação não merece nosso respeito”, diz o personagem em certo momento. Como anda a nossa ficção (e nossa autoficção) atualmente? Imaginação virou um problema na literatura nacional?

R – Imaginação é tudo em um livro de ficção. Eu escrevi um dos primeiros romances de autoficção no Brasil – Chove sobre minha infância (2000) – e o que marca este gênero não é a fidelidade ao real, mas a capacidade de inventar coisas a partir do real. A literatura brasileira não pode ser um ramo do jornalismo de investigação nem das aulas de história. Não pode ser um diário íntimo. O literário nasce sempre de um excedente de imaginação e de linguagem.

– A ideia do Cristo guerrilheiro me agrada bastante (se não guerrilheiro, talvez, o Cristo revolucionário). Acha que falta essa visão sobre ele no mundo de hoje?

R – Cristo é revolucionário porque ninguém pode comprá-lo. Tudo no mundo atual é comprável. Em meu romance, há este jogo entre o que podemos lucrar e o prejuízo programado. Só acredito em pessoas que levam prejuízo. Este prejuízo, no livro, chega à renúncia da própria vida. Mas está também presente na vida do Professor Pessoa, que é um Cristo à sua maneira. Um Cristo da renúncia social.

– Você já fez as trilhas de Che pela Bolívia? Se sim, o que achou e por quê? Se não, como construiu a passagem por aqueles cantos?

R – Sim, fiz todos aqueles itinerários. E fiz com prazer. Conheço cada cenário do romance, e este conhecimento transmite ao leitor uma noção de verdade. Mas a história é toda inventada. Como falar de Che naquele momento sem ter estado no lugar em que ele morreu ou em que ele foi enterrado? A invenção nasce muitas vezes das sensações que os lugares e as coisas nos tramitem. A Rota do Che está relegada a um turismo de militância. Mas para mim ela foi os passos da paixão do homem que buscava em cada ação um prejuízo pessoal. Não há nada mais anticapitalista do que isso.

R- Existe mesmo esse sórdido comércio de fotos de meninas raquíticas nuas expostas como judias no campo de concentração?

R – Esta é uma pergunta que deixarei para o leitor responder. Em uma entrevista com o autor, há questões que devem ficar em aberto.

– O final é triste e forte. O destino de qualquer revolucionário sonhador é, invariavelmente, a morte pela causa?

R – É o sacrifício. A história está cheia disso. Não ser razoável. Não dar as respostas esperadas. Constatar que nossos projetos não têm valor no mundo prático e continuar apostando neles. O que me agrada na trajetória de Celina e do Professor Pessoa é que eles estão sempre achando razões para fazer coisas que resultarão inócuas.

– Outra do personagem: “A militância gera má arte”. E o que gera a boa arte?

R – A boa arte só pode nascer da independência de opinião. Você dizer o que pensa naquele momento – contra tudo, contra todos. Sem querer nada em troca, sem querer tirar partido. Eu nunca penso no que vão pensar sobre o que escrevi. Nunca escrever por procuração, para corresponder a expectativas. Nunca escrever um romance achando que é um abaixo-assinado. A arte é a solidão total. É viver no labirinto.