Sob efeito do El Niño, campo enfrenta risco crescente de extremos climáticos

Em Piraí do Sul, trabalhadores rurais registraram o momento em que o tornado se aproximou

“O sentimento é horrível: você perde uma vida em cinco segundos”, resume a produtora Leticiane Flugel, em relação ao instante em que um tornado atingiu sua propriedade no município de Piraí do Sul, no início de agosto.

O terreno era do avô dela, passou para o pai e, há três meses, tinha se tornado o endereço de um sonho: viver da produção de morango ao lado do marido, Juliano Santos. Junto há 14 anos, o casal economizou para erguer a estufa e plantar 4 mil pés de morango, além de feijão, milho e hortaliças.

Os frutos estavam com 90 dias, quase no ponto para a primeira colheita da vida do casal, quando o tornado passou. “A gente assistia pela televisão, mas não imaginava o peso do sentimento que fica quando passa por essa situação”, relata Leticiane. Casa, garagem, estufa e carro foram danificados, resultando em um prejuízo de R$ 20 mil. Sem seguro, a família recorreu à ajuda da vizinhança para cobrir o telhado e iniciar a reconstrução da estufa.

A história de Leticiane e Juliano é um retrato do que técnicos e meteorologistas preveem se repetir com mais frequência nos próximos meses, à medida que o El Niño se intensifica sobre o Estado. Segundo o Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar), com informação da Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), há mais de 90% de probabilidade de o fenômeno climático atingir intensidade forte, quando as temperaturas da superfície do mar ficam ao menos 2 graus acima da média histórica. O pico deve ocorrer entre outubro e dezembro, com influência sobre o clima paranaense até o primeiro trimestre de 2027.

“Como a dinâmica já é mais chuvosa, com uma frequência maior de tempestade, o El Niño deixa ainda mais instável. Nós podemos ter uma frequência maior de vento, tempestade, dias chuvosos, com mais dias consecutivos com chuva”, afirma o meteorologista Reinaldo Kneib, do Simepar, lembrando que o fenômeno tem origem no aquecimento das águas do Oceano Pacífico e altera a circulação geral da atmosfera, favorecendo o transporte de calor e umidade da Amazônia para o Sul do país.

Ainda, o especialista esclarece que o fenômeno não significa chuva todos os dias, mas um reforço dos padrões que já ocorrem naturalmente no Estado, inclusive tornados, cuja frequência tem aumentado nos últimos anos, sobretudo na região Centro-Sul. Nos episódios mais recentes, um tornado categoria F3 passou por Piraí do Sul, com ventos acima de 300 km/h, e outro por Rio Bonito do Iguaçu, no fim de 2025, na categoria F4.

“Esse alerta não pode ser ignorado”, reforça o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette.  “O El Niño intenso, com tempestades, vendavais e chuvas, significa mais risco para os nossos produtores rurais. Vamos seguir cobrando o poder público quanto a uma política de seguro rural acessível, além de medidas e estratégias de prevenção. Ninguém no campo e na cidade pode ficar desprotegido diante de fenômenos da magnitude que estamos vivendo”, completa.

Atenção redobrada no campo

Para o agrônomo Bernardo Lipski, do Simepar, os episódios recentes reforçam a importância de o produtor rural acompanhar diariamente os alertas meteorológicos. Desta forma, é possível tomar medidas para minimizar danos na propriedade. Ventos fortes e tornados ameaçam lavouras, estufas, galpões, silos, redes elétricas e equipamentos. Já o granizo pode destruir a lavoura em minutos, enquanto chuvas intensas provocam alagamentos, enxurradas e erosão. Os raios são risco direto para pessoas e animais.

Nestes casos, a recomendação é, diante da previsão ou alerta de tempestade severa, evitar áreas abertas, árvores isoladas e estruturas metálicas; suspender aplicação de defensivos e operação de máquinas; verificar as condições de telhados e estufas com antecedência; e manter máquinas, equipamentos e animais em locais protegidos.

Conforme as previsões, o El Niño deste ciclo deve atingir ao menos duas safras: o fim das culturas de inverno e a próxima safra de verão. No caso dos grãos de inverno, o resultado pode ser, por exemplo, uma farinha e um malte de pior qualidade, com desconto no preço pago ao produtor. Hoje, esse tipo de prejuízo por qualidade não está coberto pelo seguro rural, já que as apólices protegem apenas perda de produtividade.

“A chuva já não é mais desejada nesse período. O excesso de umidade favorece a ocorrência de grãos avariados e a proliferação de doenças na espiga, o que deteriora a qualidade do grão”, explica Ana Paula Kowalski, coordenadora do Departamento Técnico e Econômico (DTE) do Sistema FAEP.

Para a soja, a preocupação é outra: tempestades no início do plantio podem causar erosão em solo exposto, levando sementes recém-plantadas e obrigando o produtor a replantar. Períodos nublados prolongados também alongam o ciclo da soja, um efeito cascata sobre o cronograma da propriedade. A umidade excessiva ainda favorece a ferrugem asiática, aumentando o número de aplicações de fungicida e encarecendo o custo de produção.

Os desdobramentos também impactam o seguro rural. As seguradoras já avaliam o risco elevado de determinadas safras e restringem a venda de apólices, fazendo com que o prêmio fique mais caro, em um cenário em que o desconto da subvenção governamental tem ficado cada vez mais escasso.

“A conta não fecha, e o valor do seguro acaba pesando na composição do custo de produção”, diz Ana Paula.

Fonte: Faep