Piquirivaí 60 anos: agricultores e pioneiros ajudam a preservar a história de uma comunidade construída pelo trabalho

Urcino recorda que a chegada da família foi marcada pelas dificuldades características de uma região em processo de ocupação – Foto: Da Assessoria

Aos 80 anos, Urcino Pereira, que chegou à região ainda criança, em 1958, relembra os primeiros tempos de Piquirivaí e destaca a força da agricultura, da união dos moradores e das raízes que ajudaram a transformar o antigo povoado no distrito que completa 60 anos, nesta quarta-feira, 19 de agosto.

A história dos 60 anos de Piquirivaí também é a história de homens e mulheres que chegaram quando a região ainda era marcada pela mata, por pequenas propriedades rurais e por poucas moradias. Entre esses pioneiros, os agricultores tiveram papel fundamental na ocupação, no desenvolvimento econômico e na formação da identidade da comunidade, ajudando a transformar uma área de características essencialmente rurais no distrito que hoje integra o município de Campo Mourão. Na quarta-feira, dia 19, oficialmente, o Distrito comemora o seu aniversário comemorativo de elevação a Distrito Administrativo de Campo Mourão.

Localizado às margens da BR-369, a cerca de 20 quilômetros da sede do município, Piquirivaí foi criado como distrito administrativo em 1966. Sua trajetória, porém, começou décadas antes, entre as décadas de 1940 e 1950, quando os primeiros moradores começaram a se estabelecer na região. A agricultura e a pecuária passaram a fazer parte da rotina da comunidade e, ao longo dos anos, ajudaram a sustentar o crescimento local.

Uma das testemunhas dessa transformação é Urcino Pereira. Nascido em 2 de março de 1946, em Condeúba, na Bahia, ele chegou à região em 1958, ainda com 11 anos de idade, acompanhado dos pais e dos irmãos. Naquele período, Piquirivaí ainda não tinha a estrutura que apresenta atualmente e era, segundo suas lembranças, praticamente uma grande fazenda.

Urcino recorda que a chegada da família foi marcada pelas dificuldades características de uma região em processo de ocupação. As estradas eram precárias, muitas vezes inexistentes, e o acesso às propriedades era feito por caminhos abertos em meio à mata. A paisagem era formada principalmente por taquara, samambaia e saúva, enquanto algumas poucas construções começavam a surgir.

A família se estabeleceu em uma propriedade rural localizada a aproximadamente 10 quilômetros de onde hoje está o núcleo de Piquirivaí. Para chegar ao pequeno povoado, era necessário percorrer o trajeto até os poucos estabelecimentos existentes, inicialmente conhecidos como bodega. Com o passar dos anos, novos moradores chegaram, o comércio foi se estruturando e o pequeno núcleo começou a ganhar características de comunidade.

A trajetória de Urcino acompanha justamente esse processo. Ele viu a abertura de estradas, o surgimento de novas casas, a expansão do comércio e a chegada de estruturas que contribuíram para a consolidação do distrito. Também acompanhou a evolução da atividade agrícola, que deixou de ser baseada apenas no esforço manual e passou a incorporar máquinas, tecnologia e equipamentos cada vez mais modernos.

Hoje, a agricultura permanece como uma das principais forças econômicas de Piquirivaí. O cultivo de soja, milho e trigo ocupa posição de destaque, ao lado da pecuária e de outras atividades ligadas ao meio rural. Para Urcino, que construiu sua vida no campo e formou sua família na comunidade, a evolução da produção agrícola é uma das maiores demonstrações da transformação vivida pela região.

Ao lado dos filhos e de outros familiares, ele continua ligado à atividade rural. A propriedade da família conta atualmente com tratores, colheitadeiras e caminhões utilizados nas diferentes etapas da produção. A estrutura disponível no próprio distrito também facilita o trabalho dos agricultores, reduzindo deslocamentos e fortalecendo a economia local.

Para o pioneiro, a força de Piquirivaí está justamente na capacidade de trabalho de seus moradores e na vocação agrícola da comunidade. Em sua avaliação, quem vive e trabalha na região conhece o potencial de suas terras e a importância de cuidar da propriedade, administrar bem a produção e manter o compromisso com o trabalho.

Essa relação com a agricultura representa mais do que uma atividade econômica. É parte da identidade construída por gerações de moradores que ajudaram a ocupar a região, abrir propriedades, produzir alimentos e criar as condições para que Piquirivaí se desenvolvesse.

Urcino também destaca a importância da estrutura de comercialização e apoio existente atualmente no distrito. A presença de serviços voltados ao produtor rural permite que boa parte das necessidades do agricultor seja atendida na própria comunidade, enquanto a produção pode ser recebida e encaminhada sem que os produtores precisem percorrer grandes distâncias.

A evolução é significativa quando comparada aos primeiros anos, quando os moradores precisavam se deslocar até Campo Mourão para adquirir produtos e resolver questões básicas. O desenvolvimento da infraestrutura e da economia local tornou Piquirivaí mais autossuficiente e fortaleceu sua posição como importante comunidade rural do município.

UMA VIDA CONSTRUÍDA EM PIQUIRIVAÍ

A história de Urcino também se mistura à formação de sua família. Em 1969, casou-se com Laura Ribeiro Pereira, que veio do Estado de São Paulo. Juntos, constituíram uma família com cinco filhos: Sidinei Pereira, Elaine Pereira dos Santos, Rosana Pereira Walter, Osnei Pereira e Rogerlei Pereira. Ao longo das décadas, os filhos também passaram a manter vínculos com a atividade rural, dando continuidade a uma tradição familiar que começou quando Urcino chegou à região ainda menino.

Além da agricultura, o pioneiro também participou de outras atividades da comunidade. Foi envolvido com o futebol local e chegou a atuar até os seus 70 anos de idade em campo, mantendo forte ligação com o esporte. Também colaborou com iniciativas comunitárias e ajudou na estruturação de espaços utilizados pelos moradores, atuado também como Presidente da Capela Imaculada Conceição, de Piquirivaí, durante um certo período.

Sua trajetória demonstra que o pioneirismo de Piquirivaí não foi construído apenas por quem abriu as primeiras áreas de cultivo. A comunidade cresceu a partir da participação de agricultores, comerciantes, famílias, lideranças religiosas, trabalhadores e moradores que, cada um à sua maneira, contribuíram para transformar o local.

DA ANTIGA FAZENDA AO DISTRITO

Antes de Piquirivaí se consolidar como distrito, a região era caracterizada por grandes áreas rurais e poucas edificações. O primeiro morador apontado na história local é João Maria Teixeira da Silva, que em seguida foi responsável pela abertura de um armazém de secos e molhados, que se tornou um dos primeiros pontos de referência para os moradores.

Com o tempo, chegaram a igreja, novos estabelecimentos comerciais e cerealistas, acompanhando o crescimento da produção agrícola. Entre os pioneiros estão Antonio Araújo, responsável pela primeira máquina de arroz; Benjamim Moreira, ligado ao primeiro armarinho; Eloy Marchry, responsável pela primeira cerealista; e Vera Simão de Almeida, primeira responsável pelo cartório.

A criação oficial do distrito, em 1966, marcou uma nova etapa dessa trajetória. Desde então, Piquirivaí continuou crescendo e consolidando sua identidade, sem abandonar a característica rural que está presente desde sua origem.

Atualmente, com cerca de 1.200 habitantes, o distrito conta com o Colégio Estadual do Campo Jaelson Biácio, a Escola Municipal do Campo Narciso Simão, a Unidade Básica de Saúde Carlos Antônio, o Estádio Distrital Odair Silvestre e um comércio que atende moradores e produtores da região.

VIU TUDO COMEÇAR

Aos 79 anos, depois de mais de seis décadas vivendo em Piquirivaí, Urcino Pereira olha para o distrito como quem também revisita a própria trajetória. Para ele, a comunidade se transformou profundamente, mas continua mantendo aquilo que considera essencial: o trabalho, a união e o vínculo com a terra.

Urcino destaca que se sente feliz por ter construído sua vida em Piquirivaí e afirma que não trocaria o lugar onde vive por nenhum outro. Para o pioneiro, a comunidade oferece condições para trabalhar, produzir e construir uma vida digna, especialmente para quem se dedica à agricultura.
Ao completar 60 anos como distrito, Piquirivaí representa, para Urcino, uma história de conquistas construída por muitas mãos. Sua mensagem aos moradores é de reconhecimento e gratidão, especialmente aos amigos e às famílias que fizeram parte dessa caminhada.

Ele deseja que Piquirivaí continue avançando e parabeniza todos os moradores pelos 60 anos do distrito, ressaltando que a comunidade tem motivos para celebrar sua trajetória e seguir acreditando em seu futuro.

A história de Urcino Pereira é, assim, parte da própria memória de Piquirivaí. Da chegada de um menino de 11 anos, em uma região onde predominavam mata, taquara, samambaia e saúva, até a realidade atual de um distrito marcado pela produção agrícola, pelo comércio e por uma comunidade consolidada, são quase sete décadas de transformações.

Mais do que recordar o passado, reconhecer pioneiros como Urcino é valorizar as pessoas que ajudaram a construir o presente. E, em Piquirivaí, essa história passa necessariamente pelo agricultor: aquele que desbravou a terra, enfrentou as dificuldades dos primeiros anos, produziu alimentos, formou famílias e ajudou a transformar o campo em uma das principais forças de desenvolvimento da comunidade.

Ao celebrar seus 60 anos, Piquirivaí celebra também esses homens e mulheres que, com trabalho e perseverança, ajudaram a escrever uma história que continua sendo construída a cada nova safra, a cada família e a cada geração.