Há 50 anos, Campo Mourão virou palco nacional da conservação do solo

Fotos: Divulgação

Há cinquenta anos, Campo Mourão deixou de ser apenas uma cidade agrícola em expansão para se tornar, por um dia, o centro de uma discussão que mobilizava o Brasil rural: como produzir mais sem destruir o próprio solo. Em 1976, o município recebeu o lançamento do Plano Nacional de Conservação de Solos, o Pró-Solo, numa solenidade que reuniu autoridades federais, estaduais e municipais, técnicos, agricultores, cooperativistas, estudantes e moradores. O evento transformou-se em um dos episódios mais simbólicos da história agrícola da região.

O Brasil vivia, naquele momento, uma fase de rápida modernização do campo. A mecanização avançava, novas áreas eram incorporadas à produção e a agricultura ganhava escala. Mas esse crescimento cobrava um preço. Em muitas regiões, especialmente no Paraná, a erosão avançava de forma preocupante, levando embora justamente a camada mais fértil da terra. O problema já não podia ser tratado como consequência inevitável da agricultura. Era preciso mudar práticas, formar produtores e criar uma política pública de alcance nacional.

Foi nesse contexto que o Ministério da Agricultura lançou o programa. Campo Mourão, pela força de sua produção e pela mobilização de suas instituições agrícolas, foi escolhida para sediar o ato nacional. À frente do Ministério estava Alysson Paulinelli, uma das figuras mais influentes da transformação da agricultura brasileira nas décadas de 1970 e 1980. A visita tinha peso político e técnico, mas também um forte caráter simbólico: o governo queria mostrar que a conservação do solo deveria fazer parte do projeto de modernização do país.

A cidade amanheceu mobilizada. Paulinelli chegou por volta das 9h30, vindo de Londrina em avião do Estado. Com ele estavam integrantes da estrutura federal ligada à agricultura, ao crédito rural e à assistência técnica. No aeroporto, foi recebido pelo governador do Paraná, Jayme Canet Júnior, pelo prefeito Renato Fernandes Silva, além de autoridades, produtores e populares.

Canet Júnior governava o Paraná num período de grandes transformações. Sua gestão ficou associada à modernização administrativa, à ampliação da infraestrutura e à interiorização de investimentos. No campo, o Estado buscava responder ao desafio de aumentar a produção sem permitir que a erosão comprometesse a fertilidade das terras. O lançamento do Pró-Solo em Campo Mourão se inseria justamente nesse projeto de um Paraná que buscava combinar modernização econômica, obras públicas e planejamento.

Na esfera municipal, a recepção coube a Renato Fernandes Silva, prefeito que marcou sua administração por importantes intervenções urbanas e pela busca de infraestrutura para uma cidade que crescia rapidamente. Em seu discurso, Renato destacou a agricultura como base da economia mourãoense e chamou atenção para a necessidade de conservar o solo para assegurar a continuidade da produção. A mensagem era direta: uma região que dependia da terra precisava aprender a protegê-la.

A comitiva deixou o aeroporto e seguiu pela cidade. Um cartaz visto no trajeto resumia, de maneira quase jornalística, o espírito da campanha: “Chega de desperdício.” Era uma frase simples, mas dizia muito sobre a preocupação daquela época. O desperdício não estava apenas na perda de grãos ou de recursos. Estava na terra levada pelas enxurradas.

A programação começou com compromissos oficiais, entre eles a inauguração da União Agricultura e Sementes, a Uniagro, e do Núcleo Regional da Secretaria de Estado da Agricultura. Em seguida, autoridades e convidados seguiram para a praça Bento Munhoz da Rocha Netto, onde estudantes e moradores aguardavam a cerimônia principal.

Na praça, bandeiras foram hasteadas em um gesto que buscava dar dimensão nacional ao evento. Estavam representados, além do Paraná, estados como São Paulo, Espírito Santo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Rio de Janeiro. O Pró-Solo nascia como programa federal e pretendia ultrapassar fronteiras regionais.

Foi ali também que se destacou um dos símbolos mais duradouros daquele 1976: o Monumento à Conservação do Solo. A obra havia sido concebida por João Osório Bueno Brzezinski e Fernando Rogério Senna Calderari, a partir de propostas apresentadas em concurso promovido pelo Ministério da Agricultura. O resultado final reuniu elementos dos dois projetos, numa solução que uniu arte e conhecimento técnico.

Do projeto de Fernando Calderari vieram as curvas de nível e a representação da gota d’água. De Brzezinski, a estrutura central, semelhante a uma lâmina interferindo na terra, além da rachadura que sugere a degradação provocada pela erosão. A escultura, executada em aço inoxidável, foi pensada para permanecer como advertência pública: a terra, se mal manejada, perde sua força; se conservada, mantém sua capacidade de produzir.

Havia ainda uma ligação direta entre o monumento e o conhecimento de quem trabalhava no campo. Ricardo Accioly Calderari, engenheiro agrônomo e então presidente da Associação dos Engenheiros Agrônomos de Campo Mourão e Região, era uma das figuras ligadas à mobilização técnica daquele período. Seu conhecimento sobre curvas de nível e conservação do solo também dialogava com a concepção da obra produzida por seu primo, Fernando Calderari. O episódio sintetiza algo próprio daquele momento: técnicos, artistas, agricultores e gestores públicos estavam tentando traduzir a mesma preocupação em linguagens diferentes.

Ricardo Calderari representava uma categoria profissional que ganhava importância na transformação da agricultura regional. Os engenheiros agrônomos estavam cada vez mais presentes no planejamento das lavouras, na assistência aos produtores e na introdução de técnicas capazes de combater a erosão. A defesa das curvas de nível, do terraceamento e de outras práticas de conservação fazia parte de uma mudança cultural que não ocorreria apenas por decreto. Precisava chegar ao agricultor.

Outro personagem central daquele dia era José Aroldo Gallassini, presidente da Coamo. Fundada poucos anos antes, a cooperativa já assumia papel relevante na organização da produção e na assistência técnica aos cooperados. A presença da Coamo no lançamento do Pró-Solo não foi meramente institucional. A cooperativa fazia parte da estrutura que permitiria transformar as diretrizes do programa em prática no campo.

O próprio rumo da cerimônia acabou reforçando a imagem da agricultura como atividade submetida às forças da natureza. Quando o prefeito Renato Fernandes Silva começava seu discurso na praça, um forte aguaceiro caiu sobre Campo Mourão e dispersou parte do público. A programação foi transferida para um armazém da Coamo.

Ali, num cenário muito distante da formalidade dos grandes salões oficiais, aconteceu uma das imagens mais expressivas daquele lançamento. Sobre um tablado improvisado de sacas de soja, Alysson Paulinelli e Jayme Canet Júnior deram continuidade à solenidade. O improviso parecia adequado ao tema: um programa criado para proteger a agricultura brasileira era lançado em meio ao próprio ambiente da produção.

Em sua fala, Paulinelli advertiu para a gravidade da erosão e para a necessidade de uma resposta nacional. O solo não poderia continuar sendo tratado como recurso inesgotável. A lógica do programa era simples, mas ambiciosa: a mesma modernização que ampliava a produção deveria ser acompanhada por técnicas que garantissem a sobrevivência da base física dessa produção.

Curvas de nível eram, naquele momento, parte essencial do esforço de combate à erosão. Ao reduzir a velocidade da água sobre o terreno, ajudavam a impedir que a chuva carregasse a camada fértil do solo. O gesto do ministro pretendia mostrar exatamente isso: conservação do solo não era uma ideia abstrata. Era uma técnica concreta, que precisava ser aplicada propriedade por propriedade.

No monumento inaugurado naquele dia, duas frases procuravam deixar a mensagem para o futuro. Uma, atribuída a Paulinelli, afirmava que conservar o solo era garantir que sua generosidade pudesse ser desfrutada pelas gerações seguintes. Outra, de Paulo Carneiro, então secretário estadual da Agricultura, definia o solo como o maior patrimônio de uma nação e sua conservação como investimento no futuro.

Cinco décadas depois, as palavras conservam atualidade.
O lançamento do Pró-Solo colocou Campo Mourão no centro de uma política agrícola que buscava mudar a relação do produtor com a terra. A repercussão ultrapassou os limites do município, e cidades vizinhas manifestaram apoio à escolha de Campo Mourão como sede do evento. O reconhecimento tinha uma razão: naquele momento, a região começava a se tornar laboratório de uma transformação que teria efeitos duradouros.

O combate à erosão acabaria evoluindo para outras técnicas e sistemas de manejo. O plantio direto, a proteção permanente do solo, a rotação de culturas e o planejamento integrado das propriedades ganhariam espaço nas décadas seguintes. A agricultura paranaense se transformaria profundamente.

Ao completar 50 anos, o lançamento de 1976 pode ser visto também como um encontro de lideranças que ajudariam a moldar o futuro de Campo Mourão e do Paraná. Jayme Canet Júnior, governador de um Estado em processo acelerado de modernização; Renato Fernandes Silva, prefeito de uma cidade que buscava estrutura para acompanhar seu crescimento; Ricardo Accioly Calderari, à frente dos engenheiros agrônomos da região; e José Aroldo Gallassini, comandando uma cooperativa que se tornaria uma das maiores referências do agronegócio brasileiro.

Cada um ocupava uma posição diferente, mas naquele dia estavam reunidos em torno da mesma ideia: a agricultura podia crescer, mas não poderia destruir a terra que sustentava esse crescimento.

O monumento permaneceu. Passou a fazer parte da paisagem urbana de Campo Mourão e, com o tempo, transformou-se também em patrimônio histórico. O aço resistiu, assim como a mensagem que carregava.

Cinquenta anos depois, aquela solenidade de 1976 deixou de ser apenas uma fotografia de autoridades diante de um monumento ou de um ministro traçando uma curva de nível. Tornou-se parte de uma história maior, a da transformação da agricultura brasileira.
E Campo Mourão pode dizer que esteve no centro dela.