“Vergonha”, por Ana Aparecida Ceola, na coluna “Por escrito”

Um menino eu vi, brincando,

Com um pneu velho, descalço.

Quem sabe, feliz, sonhando,

Com um lindo cavalão de aço…

Vi o balé de uma pipa colorida,

Que subia, subia e rodopiava.

De olhar atento nesta subida,

Um guri, da janela a cobiçava.

Em alguém adulto, vi a agressão,

Contra criança, indefesa, inocente.

Um hábito estúpido e sem razão,

Cometendo injustiça, impunimente!

Vi pirralhos, vulneráveis crianças,

Se drogando, no cantinho do muro.

                                                     Sem carinho e sem esperanças,

 São pivetes do submundo obscuro.

Vi o transeunte maltrapilho,

Mendigando na noite gelada.

Adormece o infeliz andarilho,

Com frio, sobre a calçada.

O analfabeto eu vi, insultado,

Acabrunhado e seu sonho desfeito.

Que pela ganância, foi explorado,

Sem defesa, sem nenhum direito.

Vi um peregrino fraco, com fome,

Cansado da vida, pedindo arrego.

Não se sabe qual é o seu nome.

Nem se é fruto do desemprego.

Vi um jovem ansioso, muito aflito,

Em soluços, implorando por justiça.

Qual veredicto sentencia o delito,

Do réu julgado onde reina injustiça?

Vi o miserável se servir da comida,

Jogada no meio do lixo, estragada…

Muitas sobras da fartura consumida,

Por uma imensa população alienada.

Com tristeza, eu vi um pobre doente,

Sucumbir sem o devido tratamento.

Vítima da negligência inconsequente,

De quem lhe negou justo atendimento.

Vi isolado, o menor abandonado,

A corrupção ao lado da impunidade,

O descaso, o mais fraco dominado,

Pela força poderosa na sociedade.

Vi guerra, a fome, a dor, a morte,

O sucesso e fracasso da ciência.

Muitos relegados pela má sorte,

No universo sombrio da violência.

Indiferente, eu vi a solidariedade.

De almas beneméritas voluntárias,

Que amparam com amor e bondade,

Auxiliando nas ações humanitárias.

Eu vi tanta gente bisonha,

Compactuando com o desamor.

E faço parte desta vergonha,

Vivendo neste mundo de horror!

E, eu vi tanto desapontamento,

Diante das minhas vãs desculpas!

Como expiar em dado momento,

Perante Deus, as minhas culpas?

Ana Aparecida Ceola Ribeiro

Nascida em Assis, SP em 1948. Reside em Campo Mourão há mais de 20 anos. Aposentada pelo Ministério da Saúde, onde exerceu a função de auxiliar de enfermagem. Membro de AME – (Associação Mourãoense de Escritores), desde 2005. Tem textos publicados na IV,V e VI ANTOLOGIA LITERÁRIA DE AUTORES MOURÃOENSES.

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